Carta de Pentecostés 2020, Eric LOZADA

Destaque

“Vem Espírito Santo, enchei os nossos corações e enviai do céu o raio de luz! Vem a nós, Pai dos pobres, vem distribuidor de dons, vem luz dos nossos corações. Consolador soberano, doce hóspede de nossas almas, … vem encher, até a profundezas, o coração de todos seus fiéis, lave o que está sujo, irrigue o que está árido e cure o que está ferido. Dobre o que é rígido, aqueça o que é frio e endireite o que está torto” (de Veni Sancte Spiritus).

Irmãos bem amados,
rezo com vocês esta oração ao Espírito Santo, com muita atenção no mais profundo do meu coração. O coronavírus nos forçou a parar e apreciar profundamente o que aconteceu local e globalmente, o que nos levou a esta situação que estamos vivendo agora, para que o Espírito possa nos guiar por caminhos novos e criativos. A pandemia nos ensina que nosso mundo precisa ser renovado, caso contrário todos nós pereceremos. Nossa consideração por cada pessoa humana, e pelos sistemas operacionais familiares, pelas comunidades vizinhas, pelas escolas, igrejas, religiões, política, economia, tecnologia, mídia social, nossos cuidados com nossa Mãe, a Terra, tudo isso deve ser refundado em princípios mais universais e inclusivos, equitativos, menos condenatórios e contraditórios, para que possamos progredir novamente como uma civilização do amor e da vida.

Mais uma vez acolhemos o Espírito em Pentecostes, mas, de alguma forma, esquecemos que o Espírito existe desde o início, segundo o Gênesis (cfr. Gn 1,2). O movimento do Espírito sempre foi trazer de ordem em meio ao caos, dar vida, levar-nos a toda a verdade, ensinar-nos tudo o que precisamos saber (cfr. Jo 16,13). Mas o mesmo Espírito sopra onde quer e não podemos dizer de onde veio ele vem nem para onde vai (cfr. Jo 3,8). Nossa teologia, nosso pensamento e nosso planejamento bem calculado não podem prever nem obstruir o caminho do Espírito. Ele nos surpreende sempre, ampliando nossa visão e libertando cada vez mais nossos corações de todos obstáculos, para que sejamos livres para Deus em nosso mundo. Assim como não podemos ver o ar e o silêncio, o Espírito Santo renova o nosso mundo de uma maneira que ultrapassa nossa visão. Temos apenas de estar presentes em sua presença em todos os momentos.

Nosso mundo, incluindo nossa Mãe Terra, está no momento do parto, dando à luz aquilo que será o futuro após a pandemia. A grande mística Julienne da Inglaterra, em sua 13ª revelação, diz: “Tudo ficará bem e todo tipo de coisa ficará bem”. Ela explicou isso para que estejamos alegres em todas as circunstâncias, mesmo desfavoráveis, porque no último momento Cristo recapitulará todas as coisas. Precisamos ter cuidado com a forma como recebemos essa mensagem. Isso significa simplesmente cruzarmos os braços e ficar esperando tudo de Deus? É um tipo de teologia suave que promete maná do céu em meio ao nosso sofrimento?

A pandemia nos ensina a ter esperança. A esperança é a nossa capacidade de colocar o futuro nas mãos do Deus de amor. A esperança não é algo fácil; é uma luta!. Lutamos porque parece que o mal, a tirania, a violência, o medo, a morte dominam mais do que a bondade, a paz, a unidade, o amor, a vida. A resposta de Deus ao mal está oculta no Cristo ressuscitado. Ele não salvou seu Filho do momento crucial do sofrimento, mas o justificou com uma vida nova, depois que passou o desamparo, o medo, a violência e a morte. Ao final de contas, Deus nos justificará e mostrará ao mundo, e a todos os seus sistemas, o quão equivocado estavam de várias maneiras (cfr. Jo 16, 8).

Mas temos que tomar uma decisão. Diante do mal e do sofrimento, permitiremos que nossos corações sejam dominados pelo medo, o desespero, a indiferença, a amargura, a raiva e a decepção, ou seremos mais abertos, receptivos, cheios de amor, perdão e vida? O Espírito renova nosso mundo e toda a criação de uma maneira mais paciente, amável e humilde. Somos convidados a não contrariar o seu caminho, mas a seguir os desígnios de Deus para o nosso mundo.

Então o que devemos fazer? Quais são as possibilidades e os desafios que nos são dados e que devemos enfrentar com renovada coragem e esperança? Alguém disse uma vez: “Hoje não precisamos de homens grandes com corações pequenos, mas de homens pequenos com corações grandes, porque apenas os pequenos e os minúsculos podem passar pelo buraco de uma agulha’. Pequenos atos de bondade realizados com corações comprometidos e dedicados. Hoje em dia, nosso novo princípio é a necessidade de voltar ao essencial da vida segundo Evangelho, às obras de misericórdia corporais e espirituais.

Nosso próprio Irmão Carlos nos deixou uma espiritualidade: imitar Jesus em Nazaré, procurar o último lugar, viver simplesmente, fazer o apostolado de bondade para uma pessoa de cada vez, ser irmão e amigo de cada pessoa, independentemente de cor, crença, de status, ser próximo dos pobres. O Papa Francisco nos exorta a ir para as periferias, ser anunciadores da alegria do Evangelho, a proteger os menores e os adultos em situação de vulnerabilidade, a comprometer-nos com a formação permanente, a proteger nossa Mãe Terra, nossa casa comum. Devemos, também, retornar com novo entusiasmo aos elementos básicos de nossa prática espiritual: adoração cotidiana, meditação diária do evangelho, revisão da vida, dia mensal do deserto, encontros de fraternidade. Renovamos nossa fidelidade à estas práticas não para aperfeiçoarmo-nos, mas para assumir uma maior responsabilidade pelo dom recebido e permitir que seus frutos fluam para os outros infinitamente, até que Deus seja glorificado em suas próprias vidas.

Irmãos, neste período de pandemia recebemos um presente especial de nossa Mãe Igreja: o decreto de santidade do irmão Carlos. Com os outros membros da família espiritual, incluindo aqueles que foram inspirados pelo irmão Carlos, mas não são membros “canonizados” da família espiritual, agradecemos ao Espírito por esse presente.

Esperamos e rezamos para que a vida, a mensagem, as intuições e a herança do Irmão Carlos estejam mais disponíveis e sejam uma inspiração para muitas pessoas, conforme a vontade do Espírito. Por nós mesmos, rezemos por maior determinação em testemunhar com nossas vidas e nosso ministério aquilo pelo qual o Irmão Carlos viveu.

Termino minha carta com oração coleta da missa de hoje: “Pai, santifique sua Igreja entre todos os povos e todas as nações; derrame os dons do Espírito Santo na imensidão do mundo.”

Muito obrigado. Continuemos rezando uns pelos outros e rezemos também pelo nosso mundo. Por favor, rezem por mim também.

Seu irmão e servidor responsável,

Eric LOZADA
Filipinas, 21 de maio de 2020

PDF: Carta de Pentecostés do responsável internacional, Eric LOZADA, Pentec.2020, port

(Tradução de Carlos Roberto dos Santos)

FRATERNIDADE DO BRASIL: O NOSSO IRMÂO JEOVÁ ELIAS FERREIRA, NOVO BISPO

Destaque

Rinuncia del Vescovo di Goiás (Brasile) e nomina del successore

Il Santo Padre ha accettato la rinuncia al governo pastorale della Diocesi di Goiás (Brasile) presentata da S.E. Mons. Eugène Lambert Adrian Rixen da nossa fraternidade.

Il Papa ha nominato Vescovo della Diocesi di Goiás (Brasile) il Rev.do Jeová Elias Ferreira, del clero dell’Arcidiocesi di Brasília, finora Vicario Generale e Parroco di Nossa Senhora de Nazaré a Planaltina-DF.

Rev.do Jeová Elias Ferreira

Il Rev.do Jeová Elias Ferreira è nato il 24 agosto 1961 a Sobral, nell’omonima Diocesi, nello Stato di Ceará. Ha compiuto gli studi di Filosofia e quelli di Teologia presso il Seminario Nossa Senhora de Fátima dell’Arcidiocesi di Brasília. In seguito, ha ottenuto la Licenza in Teologia Pastorale a Bogotá (Colombia).

È stato ordinato sacerdote il 30 novembre 1991 ed è stato incardinato nell’Arcidiocesi di Brasília, nella quale ha ricoperto i seguenti incarichi: Amministratore della quasi-parrocchia Nossa Senhora das Graças a Samambaia-DF; Parroco di Santíssima Trindade a Ceilândia-DF; Parroco di Nossa Senhora do Rosário de Fátima a Sobradinho-DF; Membro dei Consigli Pastorale, Presbiterale e per gli Affari Economici; Vicario Episcopale.

Attualmente, è Vicario Generale e Parroco di Nossa Senhora de Nazaré a Planaltina-DF.

Jeová é o número 70 dos nossos bispos en fraternidade.

PDF: Fraternidade do Brasil, nosso irmâo Jeová Elias Ferreira, novo bispo

Carta de páscoa 2020 aos irmãos do mundo inteiro. Eric LOZADA

Destaque

Filipinas, 12 de abril de 2020

Eu ressuscitei e estou com vocês. Aleluia. (cf. Sl 139,18)

Queridos irmãos,

Como muito de vocês, estou vivendo em quarentena, e é daqui, deste meu eremitério, que escrevo para vocês. Este claustro imposto é um excelente convite para a adoração diária, para a meditação do Evangelho, para o dia de deserto, para a revisão de vida, para rezarmos pelo mundo, em particular pelos pobres, com fidelidade, intensidade e concentração. Uma vida de solidão e oração de qualidade é nosso humilde ato de caridade para com nosso mundo que vive esta pandemia.

Olhando pela minha janela, observo os sinais de uma nova vida na natureza. Aqui está seco e úmido, no entanto, os pássaros estão tocando e cantando seu único repertório de canções, as borboletas voam lentamente de flor em flor em busca de néctar, as árvores estão verdes e dão sombra, apesar do calor escaldante. É maravilhoso como a natureza tem sua própria maneira de anunciar a ressurreição. Sem preocupações e abandonando-se completamente em Deus que cuida dela.

Nós, humanos, deveríamos ser uma raça superior por causa de nossa razão, mas esta mesma razão tem enfraquecido sistematicamente nossa confiança em Deus no dia a dia, e acabamos confiando mais em nosso pensamento egoísta. Esta forma de pensar tem sido a causa da violência, do ódio e da desconfiança. A ressurreição oferece o perdão, o amor e a confiança. O mundo deve escolher.

Estamos em quarentena comunitária até o dia três de maio, mas os padres tem passe livre para trabalhos litúrgicos e de caridade. Eu os utilizo todos os dias para visitar pessoas que me convidam a acompanhar os moribundos e as famílias enlutadas, para facilitar o diálogo nas famílias e dar comida e dinheiro àqueles que foram demitidos de seus trabalhos. Alguém me pediu para dar atenção a estas pessoas desamparadas, principalmente porque elas não podiam ir à igreja e rezar. A Presença, levada pela minha presença no meio delas, é um bálsamo que as conforta.

Ao mesmo tempo, estou tendo muito cuidado, seguindo os protocolos de higiene e distanciamento para não prejudicar ainda mais a comunidade. Hoje de manhã, meu amigo Lemuel chegou ao eremitério com muita fome, parecendo abatido, pedindo comida para seus quatro filhos famintos. Lemuel foi demitido. Enquanto lhe dava alguma coisa para comer, me senti abençoado por sua alegria, mas também senti a incerteza em seus olhos.

Após a oração desta manhã, dou uma longa olhada no mapa que está na minha parede. Meus olhos se fixam sobre os quatro continentes: África, Europa, Ásia e Américas. O vírus é realmente um grande equalizador, porque os países ricos e pobres estão sofrendo da mesma maneira. Vejo rosto de médicos, enfermeiros, pacientes e suas famílias, preocupados, assustados, mas lutando pela vida. (Enquanto lhes escrevo, recebo a notícia que minha irmã, que trabalha como enfermeira nos Estados Unidos, testou positivo para Covid19. E agora sua família está em risco).

O mundo está vivendo sua paixão. Vejo rostos desamparados, preocupados, com medo, tristeza, ódio e violência em todos os lugares, e com múltiplos disfarces. Eu me pergunto: qual é a mensagem de Cristo ressuscitado para o nosso mundo hoje? O que Deus convida-nos a ver? Até onde isso nos levará? A ressurreição significa que Ele vai nos salvar de tudo isso? Qual é a resposta de Deus ao seu povo diante de uma pandemia? Como devemos ouvir a doce mensagem da ressurreição diante de tantas notícias avassaladoras de morte, sofrimento e conflito? Onde está o caminho da esperança e de uma vida nova nestes momentos difíceis?

Irmãos, por favor, sofram comigo estes questionamentos. Eu preciso de vocês, nós precisamos uns dos outros, as pessoas precisam de nós. A ressurreição não é uma alegria barata nem palavras doces para nos salvar de nosso sofrimento. Nós devemos abrir nossos ouvidos e alargar nossos corações para compreender a Mensagem. Lutamos com Deus por respostas, mesmo que a resposta d’Ele esteja escondida em Seu silêncio.

Acho que a leitura do relato da ressurreição segundo São João, deste ano, é um Kairós. Certos detalhes do texto de João poderiam ajudar-nos a ver e ouvir a Mensagem. Como não sou muito bem formado em hermenêutica bíblica, confio em uma reflexão orante do texto. Por favor, sejam generosos se isto lhes parecer ingenuidade.

Permita-me enfatizar apenas três coisas. Primeiro, João fala que a ressurreição aconteceu “no primeiro dia da semana, quando ainda estava escuro” (João 20,1a). A ressurreição irrompe dos fundamentos de nossa humanidade e do mundo, nas trevas da ignorância. Isso nos lembra a gênese, quando o mundo estava escuro e sem forma e o Espírito pairava sobre as águas escuras. Então Deus disse: “Haja luz e houve luz” (Gn 1,2-3).

Hoje, o mundo está na escuridão da pandemia. Para muitos, o futuro parece ainda mais sombrio. Como as empresas, o governo e o povo vão se recuperar? Nossos planejamentos estratégicos, nossas previsões otimistas encontrarão o remédio e a luz suficiente para nos dar um futuro brilhante? No meio desta imensa escuridão, na qual os fundamentos do mundo parecem abalados, brilha a Luz Cristo. Podemos vê-la? Ver não vem da nossa lógica humana, porque esta é facilmente derrotada pela escuridão. A luz vem do Cristo ressuscitado. Deus nos salvará deste mal? De maneira alguma, porque o mal faz o que faz. Deus salva. Ele, finalmente, reivindica a virtude, a bondade e a fidelidade enquanto atravessamos o mal e o sofrimento, exatamente como Ele fez com Jesus. Finalmente, é Deus e o Cristo ressuscitado que controlam [a vida], e não o mal e a morte. É o nosso credo. Simplesmente devemos confiar em sua verdade e vivê-la dia após dia.

Em segundo lugar, João ressalta que Maria Madalena foi a primeira a ver o túmulo aberto (Jo 20, 1b). Ela ficou triste porque ainda não conseguia estabelecer o elo entre o túmulo aberto e a ressurreição. Foi só depois de chorar que ela viu o Ressuscitado (cf. Jo 20, 11ss). É um convite a todos nós para vermos nossa realidade através da suave lente do feminino – na tristeza e nas lágrimas. Ambas preparam o coração para ver a Verdade. Hoje em dia há muita coisa que nos entristece quando olhamos nossa realidade. Estamos chorando porque, de um jeito ou de outro, fazemos parte deste mundo ferido, quebrado e violento e, de muitas maneiras, contribuímos para a existência dessa violência e destas feridas.

Finalmente, Maria contou a Pedro e João o que tinha visto. Pedro e João viram por si mesmos. Pedro viu. João viu e acreditou. Eles ainda não entendiam todo o significado da ressurreição (cf. Jo 20,2-9). Esse detalhe nos ensina que, para experimentar uma nova vida, precisamos ir ao encontro uns dos outros e caminhar juntos como uma comunidade de buscadores da verdade.

Nossa realidade é uma visão compartilhada e ninguém monopoliza o todo ou absolutiza sua parcela do todo. Todos contribuem. Cada um acredita que o outro tem algo a contribuir. A verdade nos torna humildes porque, em vez de possuí-la, é ela que nos possui. Sempre está além de nós. Então, precisamos da contribuição de todos. A verdade é um presente gratuito revelado a uma dinâmica comunidade de peregrinos que buscam com esperança. Infelizmente, em nosso mundo pós-moderno, o poder é confundido com a verdade. Assim, as pessoas se tornam arrogantes com sua parte da verdade e a absolutiza, como se fosse a verdade total. É a mesma mentalidade que cria guerra e violência. A ressurreição dá paz e perdão. Nós temos que escolher.

Irmãos, continuemos partilhando nossa busca da verdade no Senhor ressuscitado, na solidão de nossa oração e em nossas atividades fraternas e missionárias. O irmão Carlos nos mostra o caminho e também caminha conosco, em nosso desejo de seguir Jesus de Nazaré, de ser irmão de todos, viver Nazaré, estar presente no meio dos pobres, fazer a revisão de nossas vidas, gritar o Evangelho com nossas vidas, nos sentir como as ovelhas em nossa missão nas periferias, para viver o Evangelho antes de pregar.

Esta é a nossa espiritualidade como sacerdotes diocesanos que seguem os passos do irmão Carlos. É também nosso presente para o nosso mundo e para a nossa Igreja hoje. Enquanto presente, não é um mérito, mas devemos reajustá-lo constantemente pela prática.

Nisto, somos todos iniciantes e companheiros de luta, mas juntos nos encorajamos uns aos outros para continuarmos voltando à nossa prática.

Minha humilde oração por cada um de vocês. Por favor, rezem também por mim.

Eric LOZADA

(Tradução de Carlos Roberto dos Santos)

PDF: Carta de Páscoa 2020, Eric LOZADA, irmâo responsável, port

Retiro fraternidade Páscoa, 16 abril 2020

Destaque

Fraternidade Sacerdotal Iesus Caritas. Espanha

RETIRO DE PÁSCOA 2020

A VIDA PARA O IRMÃO CARLOS
A vida livre

SEGUNDO DIA,
quinta-feira, 16 de abril

Neste segundo dia de retiro da Páscoa, saborearemos a liberdade dos filhos de Deus. O Cristo ressuscitado nos dá liberdade; quem foi trancado agora está livre como o vento. Nenhum peso pega você ou um curativo impede você de andar. O irmão Carlos está ligado apenas à vontade de Deus, à vontade que ele descobre em suas buscas e à imitação de Jesus: “Para acreditar que você precisa se humilhar, você precisa ser pequeno, precisa confessar que tem pouco espírito, admitir uma quantidade. de coisas que não são entendidas…”. Carlos de FOUCAULD, “Escritos Espirituais”. Nestes dias de “confinamento da Páscoa”, podemos experimentar a grandeza e a pequenez do mundo em que estamos. Nossa comunicação com o exterior é reduzida para nos receber “estilo japonês” e o uso de dispositivos eletrônicos. Sentimos falta dos abraços e, no entanto, não paramos de sentir o carinho de Deus e dos irmãos.

É hora de contemplar toda essa situação. A custódia vazia do irmão Carlos pode nos dizer muito sobre tantas ausências, tantas vezes que nos sentimos distantes de Deus, das pessoas ou de nosso próprio ser interior. Pensamos que Jesus não está lá, porque estamos procurando por ele em uma tumba vazia. A ausência de Deus em tantas pessoas nos deixa tristes, e gostaríamos de aproximá-lo de Jesus, que não parou de amá-los, buscá-los, abraçá-los. Ausências que às vezes são preenchidas com algo artificial, sonhos ou fantasias inúteis. Deus é um Deus dos vivos, disse Jesus, e Ele é um Deus que nos dá liberdade, apesar do nosso momento atual de “ficar de pé” ou calar a boca em casa. Em breve poderemos dizer “libertar o preso”. Nada vai nos impedir de nos abraçar e cumprimentar novamente como sempre. Nesse momento, Jesus não se distancia e nos abraça quando o adoramos, pois seu amor é mais forte do que as limitações que agora temos que viver.

Sábado Santo foi um dia de deserto para mim. Talvez seja o dia mais apropriado do ano para viver assim, até a época da Vigília Pascal. Um deserto que pode ser uma repetição do que é vivido todos os dias, mas que mais uma vez me colocou na imensidão de Deus, em seu chamado, em seu convite para sentir-se livre no momento de Nazaré, que é o confinamento. O deserto, que nos faz esvaziar de tudo e esperar tudo do Senhor. O Assekrem com as quatro paredes, o jardim, o pomar, a rua ou o campo que vemos da janela …

Como nos identificamos com esse Cristo vivo e livre em nossa missão? “Não temos a obrigação de dar esmolas, conselhos ou orar constantemente, mas temos que dar um bom exemplo, tanto mais que nossas obras são conhecidas, embora acreditemos que estamos completamente sozinhos…“, Carlos de FOUCAULD, ” Escritos espirituais ”. Nossa missão, estar junto com as pessoas em seus momentos difíceis, no cotidiano de suas vidas; também nos permite invadir por sua humanidade, por sua alegria ou tristeza, suas coisas aparentemente insignificantes, seu caminho compartilhado e sua fé ou falta dele, é a missão para a qual Jesus nos envia. “Jesus, com sua obra redentora, nos deu novamente a liberdade, a liberdade das crianças” (Papa Francisco). Cristo nos dá a liberdade de deixar tudo, de reservar tempo, da condição de ser uma pessoa consagrada, da imagem social que temos, de dizer sim à pessoa que precisa de nós, a quem podemos fazer o bem, sem “conselhos” sacerdotes ”, sem serem oficiais da liturgia ou dos sacramentos. Não importa as formas externas; o importante é o amor que colocamos.

Jesus veio não apenas para mudar o curso natural da vida física, mas para lhe dar um novo significado com a força de seu Espírito e o poder de sua palavra, transmitindo aos seres humanos uma esperança eterna, fonte inesgotável de verdade. alegria. A lápide que os discípulos de Jesus devem remover é enorme e pesada, pois a laje da morte continua a enterrar milhares de mortes hoje na pandemia mundial de coronavírus e as massas dos pobres e marginalizados em toda a nossa terra.” José CERVANTES GABARRÓN, (sacerdote da diocese de Cartagena, Espanha, em uma homilia quaresmal). Dada a diversidade de chamadas que recebemos, das mensagens que transbordam de nossos dispositivos eletrônicos nessas semanas, vamos responder com alegria da Páscoa. Muitas pessoas precisam de nós – simplesmente – para saber que estamos lá, que somos mais importantes para eles do que uma máscara quirúrgica. Eles sabem que nosso rosto e nossas mãos não se espalham mais do que o amor de Jesus, e sabemos que seu povo também é uma canção pascal de louvor, de ação de graças. Então, temos que agradecer às pessoas. Um por um, com o rosto e o nome, diante de Jesus em adoração, colocando ao seu lado quem não vemos, mas sentimos.

A pessoa que ama está aberta às tristezas dos outros e sente impulsos em relação à compaixão e ajuda, porque sente unidade com os aflitos. Conforta cada pessoa que você vê sofrimento. Ele sabe que é um com a energia original da qual tudo participa. Isso ocorre simplesmente quando nos abrimos e entramos em contato um com o outro com pena.” Willigis JÄGER, “Para onde nosso desejo nos leva. Misticismo no século XXI ”, Desclée de Brouwer (Willigis JÂGER comemorou sua Páscoa em março passado)

A Páscoa nos devolve a alegria de ser salva, a liberdade de ser feliz, a esperança de um mundo mais positivo, de apreciar o esforço e o trabalho de muitas pessoas que deixam a pele para os outros. Agradeçamos a Deus por este Jesus libertador, pequeno nos pequeninos e muito grande em nossos corações.

Boa e feliz Páscoa para todos.

PDF: Retiro fraternidade Páscoa, 16 abril 2020, port

Retiro fraternidade Páscua, 15 abril 2020,

Destaque

Fraternidade Sacerdotal Iesus Caritas. Espanha

RETIRO DE PÁSCOA 2020

A VIDA PARA O IRMÃO CARLOS
A vida do último

PRIMEIRO DIA.
Quarta-feira, 15 de abril

Revendo o cântico de Filipenses (Fip 2,6-11), que aprofundamos nestes dias da Semana Santa, e oramos com ele, estamos com o irmão Carlos em seu aprendizado de abnegação, como o discípulo que aprende com seu mestre: “Ele desceu: ele desceu a vida toda, descendo quando encarnou, descendo quando menino, descendo obedecendo, descendo ficando pobre, abandonado, exilado, perseguido, executado, sempre se colocando em último lugar”. Carlos de FOUCAULD, “Escritos Espirituais”.

O aristocrata se torna um servo, o senhor do castelo vai morar na vila, tira o título e se torna irmão. Como podemos entender o último local se permanecermos no local habitual ou até tentarmos subir, subir posições? Quantas vezes nos enganamos pensando que já somos humildes?

A imitação de Jesus, como ensinamento de Carlos de FOUCAULD e constante desejo de sua conversão, sabemos que consiste em orar, trabalhar, amar, acompanhar, perdoar, como Jesus fez, e também ser feliz como ele, mostrando o Misericórdia do pai, em todo gesto, toda palavra. “A misericórdia não é fabricada: é recebida. O presente de Deus não é comprado, não é vendido, não retorna a ligação. Dê livremente sem esperar nada, sem que ninguém perca a esperança. Arrisque amar até o fim”. Jacques GAILLOT em “Feliz o Misericordioso”, 10 de setembro de 2016 em iesuscaritas.org

Certamente estamos experimentando nestes dias de “vida oculta”, confinados, sem nada em nossas agendas, com as velas de nossos navios dobrados, esperando um vento favorável, um estilo Nazaré muito especial.

O chamado para ser missionário deve estar permanentemente em nossos corações; não participar da vida das pessoas, visitar os doentes, receber amigos e pessoas que vêm a nossa casa e tantas coisas que não podemos fazer durante essa pandemia podem ajudar-nos a rever o significado da missão. É muito provável que sintamos falta dos outros, como sentimos a nossa falta em uma situação normal. Nós nos tornamos os últimos por imposição. Devemos ser os últimos porque nosso Mestre foi feito dessa maneira, e é assim que aprendemos todos os dias.

Tudo isso nos torna mais conscientes das realidades do nosso mundo. Vivemos em uma Europa confortável que está cambaleando, uma Europa fechada em si mesma: “A Europa dos povos está prestes a ser construída. É o significado da história. Sacrificar homens pelo bem da economia, deixando os países do Terceiro Mundo de lado, não se tornará a Europa dos povos. Qual será o futuro das comunidades imigrantes? Parece-me no Tratado de Maastricht que os imigrantes pagam o pato por uma Europa forte que dá um pouco mais de altura a seus muros.”Jacques GAILLOT, “Eu tomo minha liberdade …”, Nueva Utopía

Essa Europa, que sofrerá uma crise econômica que ainda não conhecemos seu alcance, que será a crise humanitária de tantas pessoas – que realmente é o mundo dos últimos, daqueles que sempre foram os últimos – aprenderá a estar no seu em vez disso, para saber ouvir melhor, aplicar uma política de olhar menos para o umbigo e olhar para o mundo sem medo. Algo assim pode acontecer na América do Norte … E, como Igreja, poderíamos dizer o mesmo.

Do pequeno, que sempre foi sem importância aos mais ricos, o irmão Carlos constrói um sonho. Era algo que ele não via realizado, como uma utopia inatingível – um desafio do Reino – e, no entanto, estamos gostando disso, porque nos ajuda em nossas vidas a viver simplesmente, compartilhar, ser fraternidade, não olhar ninguém acima de nós, para não ser submisso ao consumo feroz, ou como sacerdotes, para celebrar a fé do povo, do qual fazemos parte, sem barulho ou rituais complicados, fazendo parte da história da vida das pessoas porque elas são importante para nós. “Em solidariedade com os pobres. Esta Páscoa tem sua própria cor. Nossa ambiguidade pessoal parece um pouco mais clara, iluminada pelos pobres. Alguns que andam com Jesus ficam desconcertados com as palavras de denúncia e com a exigência de seus direitos e, consequentemente, querem silenciar a voz dos pobres e daqueles que demonstram solidariedade com eles. Os oprimidos também têm medo de morrer no deserto como os judeus, e pedem o que temos. A história, com seus contratempos e trevas, nos leva a perder de vista o Deus que parece perdido e distante na montanha, enquanto ao nosso lado são feitos ídolos de emergência feitos de ouro brilhante.” Benjamín GONZÁLEZ BUELTA, “Desça ao encontro de Deus. A vida de oração entre os pobres ”, Sal Terrae

A Páscoa, nesta Páscoa em solidão, na Nazaré doméstica, é uma oportunidade de apreciar novamente as pequenas coisas, as boas novas, os amigos ou a família que sentimos falta.

A Páscoa nos coloca no contexto da alegria dos pequeninos, os últimos, onde Jesus está sempre presente, com a porta aberta para ser convidada à mesa dos pobres, ou a cortina fechada porque não há porta. Não vamos passar por aqui, pensando em lugares melhores. A adoração de Jesus é agora aquela humilde casa onde estar com ele, com todos os pobres do mundo, diante de quem não precisamos de palavras.

Vamos agora fazer um tempo de adoração. Não para pensar no que escrevi, mas para olhar para Jesus, aquele que se tornou o último e foi o Amado do irmão Carlos.

Para nossa revisão de vida:

1 Vivo mais a minha vida (tempo, trabalho, disponibilidade, recursos pessoais, potencialidades …) do que em função do meu ser missionário, da minha dedicação aos outros? Por que e de que maneira?

2 No confinamento e na pandemia que vivi, o que aprendi da minha própria experiência interior e das experiências, valores, dor, vida e morte de fora?

3 Páscoa, como todas as Boas Novas anunciadas aos pobres, em que aspectos, atitudes ou abordagens da minha vida é uma conversão, uma mudança, um chamado? Posso imaginar ou estou vivendo isso?

PDF: Retiro fraternidade Páscua, 15 abril 2020, port

Retiro fraternidade Páscoa, 14 abril 2020

Destaque

Fraternidade Sacerdotal Iesus Caritas. Espanha

RETIRO DE PÁSCOA 2020

A VIDA PARA O IRMÃO CARLOS

INTRODUÇÃO
Terça-feira, 14 de abril, noite

Desta maneira telemática, neste retiro pascal, encontro entre irmãos e momento contemplativo para celebrar o Jesus ressuscitado, ofereço-lhe as reflexões e o convite à adoração, Cristo, pão e vinho, livres da morte e da laje, andador, peregrino conosco neste momento difícil da humanidade … Hoje, o Cristo Vivo nos convida a passar esses três dias em retiro alegre com seres humanos que têm em suas vidas a esperança de um mundo melhor. Através dele fomos salvos da cruz. Por causa dele, somos motivados a continuar na obra do Reino. “Tudo é de Deus … Devemos a ele todos os momentos da nossa vida. Nosso ser e existir: vamos fazer tudo por Deus ”. Carlos de FOUCAULD, “ Escritos Espirituais”.

De nosso irmão Carlos, com todos os aspectos e fatores de sua vida, suas intuições e contradições, vamos saborear a vida, como quem saboreia o que é pequeno e simples e quem é verdadeiramente pobre. Ele se deixou encontrar na manhã da Ressurreição e sua alegria chega até nós, que tentamos viver seu carisma como homens de fé. Façamos desta Páscoa um espaço de alegria, de sonhos – os sonhos do irmão Carlos – de vida e vida aproveitadas a cada momento, com a esperança de quem sonha com um mundo novo e com os sofrimentos, os deles e os da humanidade, eles não são um obstáculo: “Se a tristeza o convidar um dia, diga a ele que você já tem um compromisso com a alegria e que será fiel a ele a vida toda. Onde existe verdade, também há luz, mas não confunda a luz com o flash”. (Papa Francisco)

A alegria que nem sempre é motivo de riso, nem o produto do triunfo pessoal. A alegria dos discípulos em ver o Senhor, juntamente com o medo do “que acontecerá agora”. É a alegria do irmão Carlos que se reúne todos os dias em Nazaré, em Beni-Abbès ou Tamanrasset com pessoas, de quem ele aprende uma língua, um modo de se relacionar, uma escuta, como em Marrocos ele encontrou uma fé no Muçulmanos que lhe transmitiram a grandeza de Deus. Não eram bons tempos, nem política nem economicamente para o mundo; miséria e epidemias também atormentaram muitos países, de maneiras diferentes e com conseqüências díspares, como a Primeira Guerra Mundial, a pilhagem de recursos nas colônias ocidentais na África, na Ásia … Que pandemia maior que o egoísmo de os poderosos? Existe uma vacina para isso?

Tive que refazer tudo preparado para esses dias diante da situação atual e, realisticamente, não podemos deixar de lado a situação de nosso mundo, a mais próxima de nós ou a que não nos toca de perto. É uma Páscoa muito especial, pois acredito que até agora não tínhamos vivido. Apesar de tudo, vivamos como a Igreja e nosso ser profundo nos convida, assim como cada um de nós.

Especialmente para mim, nestes dias da Páscoa, nossos irmãos que já celebraram toda a Páscoa recentemente estarão em nossos corações: Manolo BARRANCO, Mariano PUGA, Michel PINCHON, Margarita GOLDIE, Antonio L BAEZA … tantos irmãos e irmãs ressuscitados. .

Voltemos nestes dias para nos surpreendermos com as Boas Novas do Jesus ressuscitado, de quem está vivo nos humildes, em hospitais, favelas, prisões, aldeias sem luz ou água em tantos lugares do mundo; daquele Cristo que passou pela cruz, mas que não passou do povo; Aquele que, de tantos homens e mulheres que nestes meses estão trabalhando para nós, nos liberta do medo e chega até nós.

Então nos colocamos na presença de Deus, sem esquecer a presença de dor, esperança e felicidade. Nós nos colocamos em suas mãos, enquanto oramos na Oração do Abandono, e oramos … “Meu Pai, eu me abandono a você …”

Com todo o amor de nossos corações, com infinita confiança, continuemos acreditando na vida, iniciando este retiro de Páscoa.

“Onde quer que eu moro e a vida brota em mim, lá verei o Ressuscitado e experimentarei Deus.” Anselm GRÛN, “Procurando Deus na vida cotidiana”, Narcea.

PDF: Retiro fraternidade Páscoa, 14 abril 2020, port

Papa Francisco reconhece milagre atribuído à intercessão do Beato Charles de FOUCAULD. José Inácio do VALE

Em 26 de maio de 2020, o Papa Francisco recebeu em audiência o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Angelo Becciu, ocasião em que autorizou a mesma Congregação a promulgar o Decreto relativo: “Ao milagre atribuído à intercessão do Beato Charles de Foucauld; sacerdote diocesano francês” (1).

A vida do Bem-aventurado Charles de Foucauld cativaram e atraíram gerações após gerações e continua de forma incrível atraindo maior número de discípulos no mundo inteiro! De tal maneira que aquilo que não obteve em vida se realizou após o seu nascimento para o Céu. Ao longo dos anos, mais de vinte famílias de leigos, sacerdotes, religiosos e religiosas brotaram da sua espiritualidade e da sua maneira de viver o Evangelho (entre as maiores, as Fraternidades dos Irmãozinhos e Irmãzinhas de Jesus). “Um homem que deu um testemunho que fez bem à Igreja”, afirmou o Papa Francisco na missa a que presidiu a 1 de dezembro de 2016, centenário da morte. E o Papa Bento XVI, no momento da beatificação, a 13 de novembro de 2005, declarou que a sua vida é “um convite a aspirar à fraternidade universal”.

O maior marco de sua vida foi a profunda experiência de conversão, que o transformou num dos maiores buscadores de Deus. Ele, grande explorador inclusive do ponto de vista geográfico, dedicou na prática o resto dos seus anos a explorar o imenso território da relação entre o Absoluto e as criaturas. Disse: “Logo que descobri que existe Deus entendi que não podia mais fazer outra coisa a não ser viver por ele: minha vocação religiosa começa no exato momento em que despertou a minha fé”.

A jornada

Nascido em Estrasburgo (França), no dia 15 de setembro de 1858 de uma família nobre, e ele próprio detentor do título de visconde de Pontbriand, passa a primeira infância em Wissembourg, mas perde os pais aos seis anos, passando a ser educado pelo avô materno, o coronel Beaudet de Morlet, que lhe deixa uma grande herança. O jovem Charles de Foucauld em 1876 entra na Escola Militar de Saint Cyr e torna-se oficial. Deixa o exército para se dedicar a expedições geográficas em Marrocos, e dedica-se a estudar árabe e hebraico. Distingue-se como explorador, de tal maneira que em 1885 recebe a medalha de ouro da Sociedade Francesa de Geografia. Em 1890 entra no Mosteiro Trapista, na França, mas depressa pede para retirar-se para uma trapa muito mais pobre, na Síria. Remonta a este período um primeiro projeto de congregação religiosa.

Com 32 anos, Charles de Foucauld sente a necessidade de ser dispensado dos votos, e alguns anos depois o pedido é deferido. Em 1897, a abade-geral dos Trapistas deixa-o livre para seguir a sua vocação. Fica durante algum tempo na Terra Santa. Regressado a França, é ordenado padre em 1901. No mesmo ano transfere-se para África, e estabelece-se num oásis do deserto do Saara profundo. Reveste uma túnica branca, na qual coze um coração de tecido vermelho, sobreposto por uma cruz. Hospeda todos aqueles que passam por ele, cristãos, muçulmanos, judeus, pagãos, e durante 13 anos vive na vila tuaregue de Tamanrasset. Reza onze horas por dia, mergulha no mistério da Eucaristia, redige um grande dicionário de francês-tuaregue, ainda hoje usado naquela região. Sua missão é ajudar a todos.

Em 1909, fundou a União de Irmãos e Irmãs do Sagrado Coração com a missão de evangelizar as colônias francesas na África. Os povos berberes, maioria no noroeste da África, reconheceram que a missão de Charles de Foucauld gerava sentimentos amigáveis ​​em relação aos franceses.
Charles de Foucauld foi assassinado por assaltantes de passagem, na porta de seu eremitério, em 1 de dezembro de 1916, em Tamanrasset, Argélia francesa, estava com 58 anos de idade. Logo foi considerado um mártir e, nos anos seguintes, sua memória passou a ser venerada. Ao mesmo tempo, sua biografia do famoso escritor francês René Bazin (1853-1932), publicada em 1921, tornou-se um best-seller.

Destaco aqui três práticas na vida de Foucauld que são modelos para os verdadeiros seguidores de Jesus de Nazaré

Missão

“Minha missão deve ser o apostolado da bondade. A meu ver, deverão dizer ‘Já que este homem é tão bom, também sua religião deve ser boa’. Se alguém me perguntar por que eu sou manso e bom, deverei responder: ‘Porque eu sou servidor de um outro que é muito melhor do que eu. Se soubesse como é bom o meu Mestre Jesus!’. Quero ser tão bom que possam dizer de mim: ‘Se o servidor é assim, como não será o Mestre!'”

O último lugar

“Não quero passar minha vida em primeira classe, enquanto Aquele que me ama a passou na última”.
Tenho para mim procurar o último dos últimos lugares, para ser tão pequeno como o meu Mestre, para estar com Ele, para caminhar atrás dEle, passo a passo, como servo leal, discípulo fiel, porque na sua bondade infinita e incompreensível Ele me permite falar assim, em irmão leal, em esposo fiel. Por isso a minha vida deve ser concebida de modo a ser o último, o mais desprezado dos homens, a fim de passá-la com o meu Mestre, o meu Senhor, o meu Irmão, o meu Esposo, que foi ‘desprezo do povo e opróbrio da terra, um verme e não um homem’. Viver pobre, desprezado, no sofrimento, na solidão, esquecido, para estar na vida com o meu Mestre, o meu Irmão, o meu Esposo, o meu Deus, Ele que assim viveu toda a sua vida, dando-me este exemplo desde o seu nascimento.

Seguir Jesus

Seguir Jesus é imitar Jesus em tudo, partilhar a sua vida como o faziam a Santíssima Virgem, São José, os apóstolos, isto é, por um lado, conformar como eles a nossa alma à dEle, convertendo o mais possível a nossa alma à sua alma infinitamente perfeita; por outro lado, conformar como eles a nossa vida exterior à dEle, partilhando como eles fizeram, a sua pobreza, a sua humilhação, os seus trabalhos, os seus cansaços, enfim tudo o que foi a parte visível de sua vida… Na dúvida de fazer ou não alguma coisa, perguntar-se o que teria feito Jesus em nosso lugar e fazê-lo. Não imitar tal ou tal santo, mais só a Jesus.

Disse o erudito Bento XVI que “nós podemos resumir a nossa fé nas seguintes palavras: Jesus Caridade, Jesus Amor” (Angelus, 25 de Setembro de 2005), que são as mesmas palavras que Charles de Foucauld escolheu como mote para exprimir a sua espiritualidade.

Para Charles de Foucauld imitar Jesus de Nazaré só na abissalidade do amor e da caridade!

A experiência profunda de Charles de Foucauld como monge, padre, missionário e eremita é de um rio de água cristalina que tem em sua correnteza um único fim: “O Paraíso com Deus”.

Frei Inácio José do Vale, FCF
Sociólogo em Ciência da Religião
Professor de Psicologia e Cultura Religiosa no
Centro Educacional Católico Reis Magos
Fraternidade Sacerdotal JesusCáritas-Charles de Foucauld

PDF: Papa Francisco reconhece milagre atribuído à intercessão do Beato Charles de FOUCAULD. José Inácio do VALE

Bem-aventurado Charles de FOUCAULD. José Inácio do VALE

Monge, Padre, Missionário e Eremita

O Beato Charles Eugène de Foucauld nasceu em 15 de Setembro de 1858 em Estrasburgo, (França). De meio familiar aristocrático, fica órfão de pai e mãe em 1864. Frequenta a Escola Especial Militar de Saint-Cyr. É herdeiro de uma enorme fortuna, que rapidamente delapida em jogo, indisciplina e excentricidades. Retrata-se e, já oficial do exército francês, é colocado na Argélia. Deixa a vida militar e torna-se explorador em Marrocos. Chega a receber uma medalha da Sociedade Francesa de Geografia em reconhecimento do trabalho de investigação no Norte de África. Mais tarde, uma prolongada reflexão sobre a vida espiritual vai conduzi-lo a uma conversão súbita e leva-o a ingressar na Ordem Trapista. Nesta Ordem estabelece-se em França, e depois na síria. Deixa os Trapistas em 1897 em busca de uma vocação religiosa autónoma e ainda não definida. É ordenado sacerdote em 1901. Regressa à Argélia e leva uma vida isolada do mundo numa zona dos Tuaregues, mas interventiva junto da população. Aprende a língua Tuaregue e estuda o léxico e gramática, os cantos e tradições dos povos do Deserto do Saara. Tem a intenção de criar uma nova ordem religiosa, o que sucede apenas depois da sua morte: os Irmãozinhos de Jesus. Em 1 de dezembro de 1916, à idade de 58 anos, Charles de Foucauld morreu por um disparo de fuzil em meio de um confronto entre os bereberes de Hoggar. Foi beatificado pelo Papa Bento XVI em 13 de Novembro de 2005.

O Beato Charles de Foucauld é também conhecido como irmão “Carlos de Jesus”, o “Irmão Universal” e o “Eremita do Saara”.

Família Foucauldiana

Dez congregações religiosas e oito associações de vida espiritual surgiram de seu testemunho e carisma. Entre eles, encontram-se as Irmãzinhas do Sagrado Coração, as Irmãzinhas de Jesus, as Irmãzinhas do Evangelho, as Irmãzinhas de Nazaré, os Irmãozinhos de Jesus, os Irmãozinhos do Evangelho; assim como a Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas, ou a Fraternidade Charles de Foucauld. É bom ressaltar que existem muitas comunidades e grupos que seguem a espiritualidade do irmão Carlos de Jesus. A Família Foucauldiana é mundialmente grandiosa!

A Espiritualidade do Irmão Carlos de Foucauld

Por René Voillaume

Com Jesus, em Nazaré, no deserto e nos caminhos dos homens

“O Padre Carlos de Foucauld, por sua parte, sempre concebeu a sua vida religiosa consagrada como uma participação da forma de vida de Cristo (…)”. Ele deixa tudo para entrar na vida monástica, porque não pode con­ceber o amor sem uma imperiosa necessidade de viver unicamente para Aquele que ama, de imi­tá-lo em tudo e de partilhar a sua condição de vida. A regra de vida do irmão Carlos pode resumir-se na sua decisão de imitar Jesus tal como o Evangelho lho revela. É então que desco­bre no desenrolar da existência terrestre de Cristo como que três maneiras de viver: em Nazaré, no deserto, e pelos caminhos como operário evangélico. Esta intuição tão simples revelou-se nele extraordinariamente fecunda e dominou sua mar­cha espiritual. O Irmão Carlos esteve constantemente atento para fazer de sua vida uma imi­tação sempre mais fiel daquela de seu bem-amado irmão e Senhor Jesus.
Entre estas três maneiras de viver de Cristo, escolheu imitar particularmente a primeira, em Nazaré. Todavia esta escolha não o impede de seguir Jesus também no deserto e nos caminhos da evangeli­zação dos homens. Como poderia ser de outra forma para quem escolheu dar-se a Cristo Jesus cuja vida e missão não poderiam ser perfeitamente compreendidas nem participadas através de um único modo de vida, concebido como excluindo os outros?
Quanto mais você frequentar o irmão Carlos esforçando-se para melhor compreender o fundo de sua alma, mais compreenderá como nele esta intuição dos três modos de vida de Cristo é característica. “Efetivamente, é um dos traços essenciais de sua mensagem”. (Mensagem extraída do livro “Sentinelas de Deus na Cidade”, de René Voillaume. São Paulo: Ed. Paulinas, 1976).

A Vocação

“A minha vocação religiosa nasceu no mesmo momento da minha fé: Deus é tão grande! Há uma diferença tão grande entre Deus e tudo o que não é Ele…” (Carta a Henry de Castries, 14 de agosto de 1901).

A Oração

“Não procura organizar, preparar a fundação dos Pequenos Irmãos do Sagrado Coração de Jesus: apenas vive como se tivesses de ficar sempre sozinho. Se estais em dois, em três, num pequeno número, vivai como se nunca tivésseis de se tornar mais numerosos. Reza como Jesus, tanto quanto Jesus, reservando como ele um lugar sempre muito grande para a oração… Sempre à imagem dele, deixa muito espaço para o trabalho manual, que não é um tempo subtraído da oração, mas doado à oração; o tempo de teu trabalho manual é um tempo de oração. Reza fielmente todos os dias o breviário e o rosário. Ama Jesus de todo o teu coração (dilexit multum), e a teu próximo como a ti mesmo por amor dele… A tua vida de Nazaré pode-se fazer em qualquer parte, viva-a no lugar mais útil ao próximo.” (Meditação de 22 de julho de 1905).

Para uma meditação profunda do pensamento do irmão Carlos de Jesus:

“Jesus só merece ser amado apaixonadamente. Quando se ama, imita-se”.

A vida e os ensinamentos do nosso amado Pai Espiritual Charles de Foucauld são respostas e propostas abissais para uma caminhada profunda consigo mesmo, com Deus, com o próximo e contra tantas boçalidades e superficialidades da era pós-moderna. Sua experiência espiritual é algo tremendamente impactante, por isso ela tem atitude forte e grandiosa para os corações desejos de fortalezas infinitas!

Seu axioma: “Gritar o Evangelho com a própria vida”. “Todos os nossos atos devem gritar o que somos de Jesus”.

Frei Inácio José do Vale, FCF
Psicanalista Clínico, PhD.
Sociólogo em Ciência da Religião
Professor de Psicologia e Cultura Religiosa no
Centro Educacional Católico Reis Magos
Fraternidade Sacerdotal JesusCáritas – Charles de Foucauld
E-mail: pe.inacio.jose@gmail.com

PDF: Bem-aventurado Charles de FOUCAULD. José Inácio do VALE