Carta de Pentecostés 2020, Eric LOZADA

Destaque

“Vem Espírito Santo, enchei os nossos corações e enviai do céu o raio de luz! Vem a nós, Pai dos pobres, vem distribuidor de dons, vem luz dos nossos corações. Consolador soberano, doce hóspede de nossas almas, … vem encher, até a profundezas, o coração de todos seus fiéis, lave o que está sujo, irrigue o que está árido e cure o que está ferido. Dobre o que é rígido, aqueça o que é frio e endireite o que está torto” (de Veni Sancte Spiritus).

Irmãos bem amados,
rezo com vocês esta oração ao Espírito Santo, com muita atenção no mais profundo do meu coração. O coronavírus nos forçou a parar e apreciar profundamente o que aconteceu local e globalmente, o que nos levou a esta situação que estamos vivendo agora, para que o Espírito possa nos guiar por caminhos novos e criativos. A pandemia nos ensina que nosso mundo precisa ser renovado, caso contrário todos nós pereceremos. Nossa consideração por cada pessoa humana, e pelos sistemas operacionais familiares, pelas comunidades vizinhas, pelas escolas, igrejas, religiões, política, economia, tecnologia, mídia social, nossos cuidados com nossa Mãe, a Terra, tudo isso deve ser refundado em princípios mais universais e inclusivos, equitativos, menos condenatórios e contraditórios, para que possamos progredir novamente como uma civilização do amor e da vida.

Mais uma vez acolhemos o Espírito em Pentecostes, mas, de alguma forma, esquecemos que o Espírito existe desde o início, segundo o Gênesis (cfr. Gn 1,2). O movimento do Espírito sempre foi trazer de ordem em meio ao caos, dar vida, levar-nos a toda a verdade, ensinar-nos tudo o que precisamos saber (cfr. Jo 16,13). Mas o mesmo Espírito sopra onde quer e não podemos dizer de onde veio ele vem nem para onde vai (cfr. Jo 3,8). Nossa teologia, nosso pensamento e nosso planejamento bem calculado não podem prever nem obstruir o caminho do Espírito. Ele nos surpreende sempre, ampliando nossa visão e libertando cada vez mais nossos corações de todos obstáculos, para que sejamos livres para Deus em nosso mundo. Assim como não podemos ver o ar e o silêncio, o Espírito Santo renova o nosso mundo de uma maneira que ultrapassa nossa visão. Temos apenas de estar presentes em sua presença em todos os momentos.

Nosso mundo, incluindo nossa Mãe Terra, está no momento do parto, dando à luz aquilo que será o futuro após a pandemia. A grande mística Julienne da Inglaterra, em sua 13ª revelação, diz: “Tudo ficará bem e todo tipo de coisa ficará bem”. Ela explicou isso para que estejamos alegres em todas as circunstâncias, mesmo desfavoráveis, porque no último momento Cristo recapitulará todas as coisas. Precisamos ter cuidado com a forma como recebemos essa mensagem. Isso significa simplesmente cruzarmos os braços e ficar esperando tudo de Deus? É um tipo de teologia suave que promete maná do céu em meio ao nosso sofrimento?

A pandemia nos ensina a ter esperança. A esperança é a nossa capacidade de colocar o futuro nas mãos do Deus de amor. A esperança não é algo fácil; é uma luta!. Lutamos porque parece que o mal, a tirania, a violência, o medo, a morte dominam mais do que a bondade, a paz, a unidade, o amor, a vida. A resposta de Deus ao mal está oculta no Cristo ressuscitado. Ele não salvou seu Filho do momento crucial do sofrimento, mas o justificou com uma vida nova, depois que passou o desamparo, o medo, a violência e a morte. Ao final de contas, Deus nos justificará e mostrará ao mundo, e a todos os seus sistemas, o quão equivocado estavam de várias maneiras (cfr. Jo 16, 8).

Mas temos que tomar uma decisão. Diante do mal e do sofrimento, permitiremos que nossos corações sejam dominados pelo medo, o desespero, a indiferença, a amargura, a raiva e a decepção, ou seremos mais abertos, receptivos, cheios de amor, perdão e vida? O Espírito renova nosso mundo e toda a criação de uma maneira mais paciente, amável e humilde. Somos convidados a não contrariar o seu caminho, mas a seguir os desígnios de Deus para o nosso mundo.

Então o que devemos fazer? Quais são as possibilidades e os desafios que nos são dados e que devemos enfrentar com renovada coragem e esperança? Alguém disse uma vez: “Hoje não precisamos de homens grandes com corações pequenos, mas de homens pequenos com corações grandes, porque apenas os pequenos e os minúsculos podem passar pelo buraco de uma agulha’. Pequenos atos de bondade realizados com corações comprometidos e dedicados. Hoje em dia, nosso novo princípio é a necessidade de voltar ao essencial da vida segundo Evangelho, às obras de misericórdia corporais e espirituais.

Nosso próprio Irmão Carlos nos deixou uma espiritualidade: imitar Jesus em Nazaré, procurar o último lugar, viver simplesmente, fazer o apostolado de bondade para uma pessoa de cada vez, ser irmão e amigo de cada pessoa, independentemente de cor, crença, de status, ser próximo dos pobres. O Papa Francisco nos exorta a ir para as periferias, ser anunciadores da alegria do Evangelho, a proteger os menores e os adultos em situação de vulnerabilidade, a comprometer-nos com a formação permanente, a proteger nossa Mãe Terra, nossa casa comum. Devemos, também, retornar com novo entusiasmo aos elementos básicos de nossa prática espiritual: adoração cotidiana, meditação diária do evangelho, revisão da vida, dia mensal do deserto, encontros de fraternidade. Renovamos nossa fidelidade à estas práticas não para aperfeiçoarmo-nos, mas para assumir uma maior responsabilidade pelo dom recebido e permitir que seus frutos fluam para os outros infinitamente, até que Deus seja glorificado em suas próprias vidas.

Irmãos, neste período de pandemia recebemos um presente especial de nossa Mãe Igreja: o decreto de santidade do irmão Carlos. Com os outros membros da família espiritual, incluindo aqueles que foram inspirados pelo irmão Carlos, mas não são membros “canonizados” da família espiritual, agradecemos ao Espírito por esse presente.

Esperamos e rezamos para que a vida, a mensagem, as intuições e a herança do Irmão Carlos estejam mais disponíveis e sejam uma inspiração para muitas pessoas, conforme a vontade do Espírito. Por nós mesmos, rezemos por maior determinação em testemunhar com nossas vidas e nosso ministério aquilo pelo qual o Irmão Carlos viveu.

Termino minha carta com oração coleta da missa de hoje: “Pai, santifique sua Igreja entre todos os povos e todas as nações; derrame os dons do Espírito Santo na imensidão do mundo.”

Muito obrigado. Continuemos rezando uns pelos outros e rezemos também pelo nosso mundo. Por favor, rezem por mim também.

Seu irmão e servidor responsável,

Eric LOZADA
Filipinas, 21 de maio de 2020

PDF: Carta de Pentecostés do responsável internacional, Eric LOZADA, Pentec.2020, port

(Tradução de Carlos Roberto dos Santos)

Carta de páscoa 2020 aos irmãos do mundo inteiro. Eric LOZADA

Destaque

Filipinas, 12 de abril de 2020

Eu ressuscitei e estou com vocês. Aleluia. (cf. Sl 139,18)

Queridos irmãos,

Como muito de vocês, estou vivendo em quarentena, e é daqui, deste meu eremitério, que escrevo para vocês. Este claustro imposto é um excelente convite para a adoração diária, para a meditação do Evangelho, para o dia de deserto, para a revisão de vida, para rezarmos pelo mundo, em particular pelos pobres, com fidelidade, intensidade e concentração. Uma vida de solidão e oração de qualidade é nosso humilde ato de caridade para com nosso mundo que vive esta pandemia.

Olhando pela minha janela, observo os sinais de uma nova vida na natureza. Aqui está seco e úmido, no entanto, os pássaros estão tocando e cantando seu único repertório de canções, as borboletas voam lentamente de flor em flor em busca de néctar, as árvores estão verdes e dão sombra, apesar do calor escaldante. É maravilhoso como a natureza tem sua própria maneira de anunciar a ressurreição. Sem preocupações e abandonando-se completamente em Deus que cuida dela.

Nós, humanos, deveríamos ser uma raça superior por causa de nossa razão, mas esta mesma razão tem enfraquecido sistematicamente nossa confiança em Deus no dia a dia, e acabamos confiando mais em nosso pensamento egoísta. Esta forma de pensar tem sido a causa da violência, do ódio e da desconfiança. A ressurreição oferece o perdão, o amor e a confiança. O mundo deve escolher.

Estamos em quarentena comunitária até o dia três de maio, mas os padres tem passe livre para trabalhos litúrgicos e de caridade. Eu os utilizo todos os dias para visitar pessoas que me convidam a acompanhar os moribundos e as famílias enlutadas, para facilitar o diálogo nas famílias e dar comida e dinheiro àqueles que foram demitidos de seus trabalhos. Alguém me pediu para dar atenção a estas pessoas desamparadas, principalmente porque elas não podiam ir à igreja e rezar. A Presença, levada pela minha presença no meio delas, é um bálsamo que as conforta.

Ao mesmo tempo, estou tendo muito cuidado, seguindo os protocolos de higiene e distanciamento para não prejudicar ainda mais a comunidade. Hoje de manhã, meu amigo Lemuel chegou ao eremitério com muita fome, parecendo abatido, pedindo comida para seus quatro filhos famintos. Lemuel foi demitido. Enquanto lhe dava alguma coisa para comer, me senti abençoado por sua alegria, mas também senti a incerteza em seus olhos.

Após a oração desta manhã, dou uma longa olhada no mapa que está na minha parede. Meus olhos se fixam sobre os quatro continentes: África, Europa, Ásia e Américas. O vírus é realmente um grande equalizador, porque os países ricos e pobres estão sofrendo da mesma maneira. Vejo rosto de médicos, enfermeiros, pacientes e suas famílias, preocupados, assustados, mas lutando pela vida. (Enquanto lhes escrevo, recebo a notícia que minha irmã, que trabalha como enfermeira nos Estados Unidos, testou positivo para Covid19. E agora sua família está em risco).

O mundo está vivendo sua paixão. Vejo rostos desamparados, preocupados, com medo, tristeza, ódio e violência em todos os lugares, e com múltiplos disfarces. Eu me pergunto: qual é a mensagem de Cristo ressuscitado para o nosso mundo hoje? O que Deus convida-nos a ver? Até onde isso nos levará? A ressurreição significa que Ele vai nos salvar de tudo isso? Qual é a resposta de Deus ao seu povo diante de uma pandemia? Como devemos ouvir a doce mensagem da ressurreição diante de tantas notícias avassaladoras de morte, sofrimento e conflito? Onde está o caminho da esperança e de uma vida nova nestes momentos difíceis?

Irmãos, por favor, sofram comigo estes questionamentos. Eu preciso de vocês, nós precisamos uns dos outros, as pessoas precisam de nós. A ressurreição não é uma alegria barata nem palavras doces para nos salvar de nosso sofrimento. Nós devemos abrir nossos ouvidos e alargar nossos corações para compreender a Mensagem. Lutamos com Deus por respostas, mesmo que a resposta d’Ele esteja escondida em Seu silêncio.

Acho que a leitura do relato da ressurreição segundo São João, deste ano, é um Kairós. Certos detalhes do texto de João poderiam ajudar-nos a ver e ouvir a Mensagem. Como não sou muito bem formado em hermenêutica bíblica, confio em uma reflexão orante do texto. Por favor, sejam generosos se isto lhes parecer ingenuidade.

Permita-me enfatizar apenas três coisas. Primeiro, João fala que a ressurreição aconteceu “no primeiro dia da semana, quando ainda estava escuro” (João 20,1a). A ressurreição irrompe dos fundamentos de nossa humanidade e do mundo, nas trevas da ignorância. Isso nos lembra a gênese, quando o mundo estava escuro e sem forma e o Espírito pairava sobre as águas escuras. Então Deus disse: “Haja luz e houve luz” (Gn 1,2-3).

Hoje, o mundo está na escuridão da pandemia. Para muitos, o futuro parece ainda mais sombrio. Como as empresas, o governo e o povo vão se recuperar? Nossos planejamentos estratégicos, nossas previsões otimistas encontrarão o remédio e a luz suficiente para nos dar um futuro brilhante? No meio desta imensa escuridão, na qual os fundamentos do mundo parecem abalados, brilha a Luz Cristo. Podemos vê-la? Ver não vem da nossa lógica humana, porque esta é facilmente derrotada pela escuridão. A luz vem do Cristo ressuscitado. Deus nos salvará deste mal? De maneira alguma, porque o mal faz o que faz. Deus salva. Ele, finalmente, reivindica a virtude, a bondade e a fidelidade enquanto atravessamos o mal e o sofrimento, exatamente como Ele fez com Jesus. Finalmente, é Deus e o Cristo ressuscitado que controlam [a vida], e não o mal e a morte. É o nosso credo. Simplesmente devemos confiar em sua verdade e vivê-la dia após dia.

Em segundo lugar, João ressalta que Maria Madalena foi a primeira a ver o túmulo aberto (Jo 20, 1b). Ela ficou triste porque ainda não conseguia estabelecer o elo entre o túmulo aberto e a ressurreição. Foi só depois de chorar que ela viu o Ressuscitado (cf. Jo 20, 11ss). É um convite a todos nós para vermos nossa realidade através da suave lente do feminino – na tristeza e nas lágrimas. Ambas preparam o coração para ver a Verdade. Hoje em dia há muita coisa que nos entristece quando olhamos nossa realidade. Estamos chorando porque, de um jeito ou de outro, fazemos parte deste mundo ferido, quebrado e violento e, de muitas maneiras, contribuímos para a existência dessa violência e destas feridas.

Finalmente, Maria contou a Pedro e João o que tinha visto. Pedro e João viram por si mesmos. Pedro viu. João viu e acreditou. Eles ainda não entendiam todo o significado da ressurreição (cf. Jo 20,2-9). Esse detalhe nos ensina que, para experimentar uma nova vida, precisamos ir ao encontro uns dos outros e caminhar juntos como uma comunidade de buscadores da verdade.

Nossa realidade é uma visão compartilhada e ninguém monopoliza o todo ou absolutiza sua parcela do todo. Todos contribuem. Cada um acredita que o outro tem algo a contribuir. A verdade nos torna humildes porque, em vez de possuí-la, é ela que nos possui. Sempre está além de nós. Então, precisamos da contribuição de todos. A verdade é um presente gratuito revelado a uma dinâmica comunidade de peregrinos que buscam com esperança. Infelizmente, em nosso mundo pós-moderno, o poder é confundido com a verdade. Assim, as pessoas se tornam arrogantes com sua parte da verdade e a absolutiza, como se fosse a verdade total. É a mesma mentalidade que cria guerra e violência. A ressurreição dá paz e perdão. Nós temos que escolher.

Irmãos, continuemos partilhando nossa busca da verdade no Senhor ressuscitado, na solidão de nossa oração e em nossas atividades fraternas e missionárias. O irmão Carlos nos mostra o caminho e também caminha conosco, em nosso desejo de seguir Jesus de Nazaré, de ser irmão de todos, viver Nazaré, estar presente no meio dos pobres, fazer a revisão de nossas vidas, gritar o Evangelho com nossas vidas, nos sentir como as ovelhas em nossa missão nas periferias, para viver o Evangelho antes de pregar.

Esta é a nossa espiritualidade como sacerdotes diocesanos que seguem os passos do irmão Carlos. É também nosso presente para o nosso mundo e para a nossa Igreja hoje. Enquanto presente, não é um mérito, mas devemos reajustá-lo constantemente pela prática.

Nisto, somos todos iniciantes e companheiros de luta, mas juntos nos encorajamos uns aos outros para continuarmos voltando à nossa prática.

Minha humilde oração por cada um de vocês. Por favor, rezem também por mim.

Eric LOZADA

(Tradução de Carlos Roberto dos Santos)

PDF: Carta de Páscoa 2020, Eric LOZADA, irmâo responsável, port

Carta de Eric. Nosso irmâo Mariano PUGA

16 março 2020

“Não verei mais o Senhor na terra dos vivos,
Não olharei os homens entre os habitantes do mundo.
Levantam e enrolam minha morada como tenda de pastores.
Como un tecedor enrolava eu minha vida e me cortam a trama” (Is 38, 11-12)

“Existe uma boa morte. Somos responsáveis da forma em que morremos. Temos que escolher entre aferrar-nos á vida de tal maneira que a morte se convirta em somente um fracasso, ou deixar ir a vida em liberdade para que possamos ser entregados aos outros como uma fonte de esperança “. (Henri Nouwen, A vida do amado)

Amados irmãos,

sentindo profundamente tanto gratidão pelo dom como tristeza pela perda, vos anuncio a passagem de nosso grande irmão, querido amigo e ícone vivo de nossa fraternidade, MARIANO PUGA CONCHA de Santiago, Chile. Ele faleceu o passado 14 de março de 2020, á idade de 88 anos. Morreu de câncer linfático.

Permíti-me honrar a irmandade de alma que tivemos com Mariano com as seguintes linhas. Meu primeiro encontro com ele foi na Assembleia Geral de El Cairo no ano 2000. Antes de sua eleição como Responsável Geral, sua presença na Assembleia foi como um virus que nos contaminava com alegria e risos com seu delicioso canto acompanhado de acordeão. Pouco sabia eu que essas canções eram dos bairros baixos de Santiago; muito jovial e empoderado e nunca deprimido. Era como um trovador cantando com seus pulmões e coração os sonhos e aspirações de sua gente de Santiago. Seu espíritu impetuoso e sua música cheia de alegria me cativaram.

Meu segundo encontro foi nos Estados Unidos em 2002. Ele estava visitando a fraternidade dos Estados Unidos, em quanto eu estava em meu ano sabático. O defunto Howard Caulkins, outro querido amigo, me propôs que, se eu ia com ele á assembleia do país em Minnesota, ele me levaria á Abadia Mepkin onde eu faria mi ano sabático como hóspede do mosteiro. De facto, viajamos juntos e lá me encontrei com Mariano de novo. Muito facilmente nos reconectamos, alma com alma, numa forma profundamente pessoal e íntima. Eu estava partilhando com ele minha crise com a Igreja, com meus demónios pessoais e com Deus e nunca me senti tão escutado. Ele simplesmente me abraçou firmemente como um irmão mais velho confortando um irmão mais novo, com lágrimas nos olhos, sentindo minha dor. Depois me sorriu com estas sossegadas palavras, “tudo estará bem”. Nos separamos com a promessa de ter-nos um ao outro presente na oração, eu para a Abadia e eu para Tammanraset.

Meu encontro mais recente com ele foi o ano passado em Cebú durante a Assembleia Geral. A 88 anos, viajar através do globo, teve um alto preço para ele. Foi hospitalizado duas vezes e nas duas ocasiões eu estive com ele. Sua sabedoria chamava-me a sair do túmulo de minhas pretensões e partilhar testemunhos pessoais. Facilmente nos reconectamos, irmão a irmão, valorando cada uma de nossas histórias, na sala de emergência (onde ele esteve 5 horas), depois dentro de seu quarto (ao qual ele fortemente resistia porque queria estar na sala comum com a gente pobre), até muito tarde. Então, com um sorriso em seu rosto, sussurrou-me, “a Assembleia já terminou e eu poderia agora ir a casa”. Voltei a casa essa noite, muito humilhado mas muito enriquecido por este comovedor intercambio, nossa revisão de vida, a qual para Mariano está no coração de qualquer assembleia de irmãos.

Permiti-me também partilhar algumas linhas que Fernando Tapia me escreveu acerca de Mariano: “Mariano foi um apaixonado buscador de Deus e um enamorado de Jesus de Nazaré. Seu encontro com ele através dos pobres dum lixão mudou sua vida para sempre. Ele deixou tudo e entrou no Seminário. Aí encontrou Carlos de Foucauld e seguiu sua espiritualidade até ao fim de sua vida. Foi Padre Espiritual e formador no Seminário de Santiago. Depois se transformou em sacerdote operário por mais de 30 anos, partilhando a vida dos pobres. Sempre viveu no meio deles. Foi seu pastor, seu defensor durante o tempo da ditadura militar de Pinochet, sofrendo a prisão 7 vezes. Promoveu uma Igreja comprometida com os pobres. Pregou muitos retiros em Chile e fora de Chile. Foi um homem de oração, alegre, próximo de todos, amigo de crentes e não crentes, um missionário nas periferias da sociedade chilena, seguindo as pegadas do Irmão Carlos. O Evangelho foi sua guia, que ele desejava gritar com sua própria vida”.

Mariano, irmão, amigo, muito obrigado. Obrigado por teu louco testemunho de um Deus louco em Jesus de Nazaré. Partilho a gratidão e a pena dos pobres de Santiago, que tu tocaste com teu testemunho. Que Jesus, o Bom Pastor, te receba para sempre em tua nova morada, essa que Ele prepara para aqueles que são fiéis.

Irmãos, eu rezo com Mariano para que, em nossas reuniões e assembleia, continuemos riscando a partilhar uns com outros nossa pobreza e vulnerabilidade. É nossa pobreza que nos une, nos qualifica e nos liberta como irmãos em fraternidade. É também o trampolim para nossa missão entre os pobres, como dissemos em Cebú. Seja também nossa humilde, mas firme resolução para partilhar a vida missionária de Jesus de Nazaré com os pobres, seguindo as pegadas do Irmão Carlos.

Com meu abraço fraterno,
Eric LOZADA

(Tradução da irmãzinha de Jesús Josefa FALGUERAS)

PDF:

Carta de Eric

CARTA DO RESPONSÁVEL GERAL AOS IRMÃOS DO MUNDO

“O Advogado, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse” (Jo 14,26)

Minhas calorosas saudação a todos vocês, meus queridos irmãos

Com toda humildade eu confesso, pessoalmente, o porquê demorei tanto tempo para escrever-lhes esta carta. Me sentei muitas vezes diante do meu computador sem saber o que e como escrever. Me senti como uma mulher grávida a ponto de dar à luz, mas com a pélvis demasiada estreita para o recém-nascido. Lutei com as palavras mas a luta maior foi com meu coração, procurando ter o espírito e a disposição apropriada de um irmão. Como muitos de vocês são somente nomes para mim, sem rostos e nem histórias que partilhamos para qualificar nossa união entre irmãos, eu necessitava de tempo para me colocar na presença amorosa do Pai que me convida a deixar o conforto de minha terra natal e me envia como um irmão missionário. Eu necessitava de momentos de oração para desnudar-me diante de Jesus, aquela nudez que o espírito de Nazaré nos convida, você e eu, nesta grande aventura de movimento descendente, vivendo simplesmente com simplicidade e alegria, tanto no cotidiano como na obscuridade, encontrando o último lugar, consumido pelo evangelho do maior e do menor, vendo Jesus nos pobres, o apostolado do bem, não para reinar, mas para servir, para ser pobre em espírito por causa do Reino. Eu precisava de espaço para ser reavivado pela espiritualidade, vida e intuições do Irmão Carlos, por meio do testemunho de irmãos e irmãs que vivem profundamente enraizados na vida e tradição da Fraternidade. O encontro com a família espiritual no Haiti, em abril passado, minhas visitas aos irmãos no Haiti, na República Dominicana e nos Estados Unidos, e meu retiro num mosteiro trapista na Geórgia, foram uma imensa ajuda para mim. (Estes assuntos serão o tema de minha próxima carta). Jesus também tinha necessidade deste espaço em meu coração para minha conversão, porque, mesmo que eu já participe há 30 anos na Fraternidade, e já tenha feito três vezes o Mês de Nazaré, ainda tenho comportamentos pouco saudáveis e imaturos que poderiam se tornar obstáculo para eu viver este ministério. Sendo um projeto inacabado, eu necessito de seus comentários sinceros e seus conselhos fraternos. Por favor, diga-me e eu ficarei feliz em recebê-los como um presente para minha educação continuada.

Como vocês devem saber, antes de ser eleito responsável Internacional, meu mundo girava em torno da minha pequena fraternidade, numa cidadezinha, sem televisão nem internet, como capelão de um pequeno mosteiro carmelita, e diretor de estudos de um pequeno seminário universitário, vindo de uma pequena diocese das Filipinas. Meu mundo era tão pequeno, meu jeito de viver era muito rural e a ideia de escrever uma carta para irmãos do mundo inteiro era, no mínimo, assustadora. Agradeço ao Espirito Santo por me ajudar a escreve-la. Rezo para que minhas palavras não se interponha à maneira do Espirito Santo ensinar-nos tudo o que Jesus quer que saibamos. Agradeço sua generosa paciência. Peço desculpas àqueles irmãos que se sentem órfãos por causa do meu longo silêncio. Em meu silêncio, em minha oração, eu rezei por vocês, seus nomes, uma vez ao dia (graças ao repertório).

Um outro olhar sobre a Assembleia de Cebu, e mais além

Nossa Assembleia de Cebu em janeiro passado foi, de fato, “uma preciosa manifestação do Espírito de Pentecostes”. Minha alegria fraterna e minha sincera gratidão a todos vocês que rezaram por nós enquanto estávamos em assembleia. A nossos responsáveis continentais e nacionais com nossos antigos responsáveis internacionais: Mariano e Abraham, que viajaram até o outro lado do mundo para participarem desta assembleia, muito obrigado. À equipe internacional anterior: Aurélio, Jean François, Emmanuel, Mark e Maurício, por seu excelente trabalho de organização e pelo árduo trabalho durante a assembleia, muito obrigado. Somente podemos construir sobre o trabalho que vocês generosamente realizaram. Agradeço particularmente ao Aurélio pela herança do site na internet: iesuscaritas.org e a José Alberto Hernandis, que se dispôs a gerenciar nosso site na internet. Minha alegria e gratidão aos membros de minha equipe, com Tony Llanes como meu corresponsável internacional, que estão muito disponíveis para servir. Como estamos a serviço da Fraternidade Internacional, peço que nos escrevam suas preocupações, notícias, convites, comentários e histórias. Pessoalmente, eu os escolho para representar os quatro continentes, de maneira a facilitar o acesso às notícias. Abaixo deixo nossos contatos:

Eric Lozada ericlozada@yahoo.com + 63 9167939585;
Tony Llanes stonyllanes@yahoo.com + 63 9183908488;
Fernando Tapia ftapia@iglesia.cl + 56 988880397
Honore Savadogo sawono2002@yahoo.com + 226 70717642
Matthias Keil Matthias.keil@graz-seckau.at + 43 67687426115.

Assim como você confia em nós, podemos também confiar em você, para nos ajudar? Mais que uma dinâmica de cima para baixo, desejamos ter mais diálogo, transparência, reciprocidade e feedback nestes diferentes níveis de comunicação. Para começar, nos reuniremos do 11 a 18 de outubro na Coréia do Sul, e agradecíamos qualquer coisa de tua parte, seja pessoal, local, nacional ou regional, que queira que consideremos e respondamos. Você pode envia-las pra mim ou ao responsável continental da equipe.

Irmãos, a carta de Cebu não é um documento acabado. É um trabalho que está em andamento. Permita-me de convidá-lo (sejamos unidos nisso) a torna-la um assunto de leitura e discussão pessoal e da fraternidade. Em Cebu, nos comprometemos em ser sacerdotes diocesanos missionários, inspirados pelo testemunho do Irmão Carlos. Contemplamos as realidades de nossa sociedade, nossa Igreja e nossas fraternidades a partir de diferentes continentes e países. Ouvimos o chamado do Espírito para nos tornarmos Igreja nas periferias (graças à liderança profética do Papa Francisco). Com base nestes apelos que ouvimos, estamos firmemente decididos em dar passos concretos e estratégicos para o desenvolvimento de nossa sociedade, nossa igreja e nossas fraternidades.

Gostaria de convidá-lo para, em sua análise e discussão, tratar este documento como um amigo cujas palavras, cheias do Espírito, são transformadoras e proféticas. A realidade é muito complexa: a violência, terrorismo, injustiça, tráfico, uma grave crise ecológica, migração, a globalização da indiferença, o fundamentalismo, a secularização (e a lista é muito longa). Quase imediatamente tendemos em observar essa realidade a partir de fora. Essa atitude não é muito benéfica. Como padres diocesanos, devemos nos envolver mais, pedindo ao Espírito que nos dê coragem e humildade, para ver a realidade com um olhar profundo e amoroso sobre nossas estruturas e subculturas interiores: valores, mentalidade, modo de vida, preconceitos, atitudes, preferências, desejos. Nomeamos as muitas maneiras sutis pelas quais fazemos parte no problema. Partilhamos nossas conquistas com irmãos de nossa fraternidade que poderiam nos ajudar em nosso crescimento. Talvez o maior presente que podemos oferecer ao nosso mundo hoje é reconhecer que fazemos parte do problema. Esperemos que, com corações arrependidos e transformados, nos tornemos também, parte da solução.

O Espírito nas chama a ser uma Igreja em saída. Peçamos ao Espírito o dom da coragem e da confiança para explorar juntos as periferias da nossa alma: as partes rejeitadas, feias, desprezadas, profundamente enterradas e ocultas de nós mesmos que devemos expressar, possuir, aceitar, abraçar para nós curar. Aqui, precisamos da intimidade de nossa fraternidade para poder partilhar nossas feridas mais profundas sem ser julgados. Se necessário, podemos consultar um profissional para nosso continuo crescimento e nossa cura. Então, da próxima vez que formos às periferias, seremos diferentes. Seremos missionários interiormente mais livres e felizes. Triste é quando vamos com nossas feridas não curadas, aparentando o que não somos interiormente. Pois nos tornamos cegos, precisando de ajuda, cheios de nós mesmos e nem sequer sabemos disso. Esquecemos a agenda de Jesus e do Reino. Como um cego pode conduzir outro cego? Estou convencido de que o melhor presente missionário que podemos oferecer ao povo de Deus, especialmente aos pobres, é o cuidado conosco mesmos, para nossa transformação contínua como discípulos missionários de Jesus.

Irmãos, em Cebu nós vimos como todos lutamos para fazer o dia do deserto e a revisão de vida. Devemos tratar este fato não como uma conclusão, mas como um ponto de partida. A conclusão é bastante óbvia e devemos ser honestos em relação a isso. Isto significa uma má qualidade de nossas reuniões, nossos relacionamentos, nossos ministérios e até mesmo nossa oração. É nossa pobreza e nossa falta de atenção ao essencial. Este é, também, o nosso caminho para a libertação e integridade, se assim o quisermos. Precisamos de uma firme determinação para comprometermo-nos em reservar um tempo regular e qualitativo de solidão no deserto, onde o Divino terapeuta poderia nos transformar e nos curar. Nossa revisão da vida não é simplesmente um relato de nossas vidas e ministérios, por mais honestos que sejamos. É, antes de tudo, um lugar de encontro com o Espírito que nos permite ver nossas vidas como Deus nos vê. Nossa partilha fraterna é um verdadeiro ponto de encontro, coração a coração. Na regularidade de tais encontros, crescemos juntos como irmãos da alma: mais confiantes, honestos, íntimos, verdadeiros, menos críticos, pretenciosos e defensivos, mais cuidadosos e mais comprometidos com o crescimento contínuo uns dos outros como discípulos bem-amados de Jesus em Nazaré, inspirado pelo Irmão Carlos. Este testemunho de fraternidade é para mim uma boa campanha vocacional.

Vem, Espírito Santo, vem

Permita-me falar um pouco sobre a próxima festa de Pentecostes. Está escrito no livro dos Atos dos Apóstolos: “Quando chegou o dia de Pentecostes, todos eles estavam reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então línguas, como de fogo, que se repartiam e pousaram sobre cada um deles. E todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem” (Ac 2,1-4).

Com todo o respeito aos nossos especialistas em Bíblia, especialmente Emmanuel Asi, convido-vos a meditar este texto comigo. Parece que o lugar de predileção pelo Espírito Santo é quando as pessoas se reúnem intencionalmente numa comunidade de amigos, de irmãos (incluindo irmãs) que acreditam em Cristo ressuscitado. Em seu núcleo, uma comunidade, bem diferente de uma multidão, é a firme resolução de cada um dos seus membros em trabalhar incessantemente por aquilo que une, em vez de dividir, conscientes de que tudo é dom e que existe apenas um doador. Embora lutemos com as diferenças (lembrar delas é sempre difícil), continuamos caminhando e caindo na Fonte que nos une. A cada vez que rezamos: “Vem, Espírito Santo e renove a face da terra”, nós rezamos por aquilo que Jesus, o sumo sacerdote, sonhou para o mundo: “Pai, que todos sejam um, como você e eu somos um “(Jo, 17-21). O Espírito Santo, que dá vida (como professamos no Credo), anima, capacita, transforma e reúne toda a criação para torná-la uma imagem viva da unidade na Trindade, assim como no princípio. A terra inteira, e não somente o mundo humano, como fala carinhosamente o Papa Francisco, torna-se nossa casa comum onde a vida, em todas as suas formas, é venerada como sagrada e como um dom. Quando Paulo ensina a comunidade de Filipos a “colocar todas as coisas sob Cristo” (2,10), o Cristo é o ponto de referência universal para todas as coisas e não apenas para os cristãos. Para ser homens e mulheres do Espírito, portanto, temos que trabalhar sempre por aquilo que inclui, e não pelo que exclui, pelo diálogo, pela fraternidade universal com tudo o que existe.

O nome que Jesus dá ao Espírito é o Advogado. Jesus prometeu o advogado que nos ensinará tudo o que precisarmos saber. Em termos legais, o advogado significa um defensor. O Espírito é nossa defesa contra o espírito maligno operando em nosso mundo atual, seja nas estruturas políticas e econômicas, nas relações interpessoais, familiares ou comunitárias, inclusive nas subculturas dentro da igreja e da religião. É muito astuto e enganador, sempre disfarçado de bom e inclusive com licença para fazer o mal em nome de Deus. O texto nos diz que a vinda do Espírito invisível toma a forma visível de línguas de fogo que repousa sobre as cabeças de cada um dos apóstolos reunidos. Rezemos para que este fogo repouse sobre cada um de nós “para transformar nossos corações de pedra em corações de carne” e para nos tornar capazes de discernir muito bem onde se encontra o mal e o bem. Que o fogo da Verdade reaviva nossos corações com uma paixão por Jesus e pelo Reino. A outra imagem visível do Espírito Santo é um vento forte que preenche todo o lugar onde o povo estava reunido. Rezemos para que este vento forte quebre e transforme corações e instituições endurecidos pela indiferença, violência, ódio, ressentimento, exclusão que apenas divide a criação de Deus. Que o Espírito, que é um vento forte, amplie os espaços em cada coração humano para incluir os pobres, os marginalizados e os estrangeiros na família dos bem-amados filhos de Deus. Que nossas fraternidades sejam escolas do Espírito para que, inspiradas pelo irmão Carlos, nos tornemos discípulos apaixonados, amorosos, de Jesus em Nazaré em nosso mundo fragmentado e violento.

Irmão Carlos, o irmão universal

Finalmente, uma nota sobre o irmão Carlos. No início deste ano, a irmãzinha Kathleen de Jesus publicou um livro com o mesmo título. Ele contém os temas principais e eu gosto da maneira como está escrito. Muito obrigada, Kathleen. Como vocês já sabem, o irmão Carlos – sua vida, sua mensagem e suas intuições – deve ocupar um lugar importante em nossa formação permanente de presbíteros diocesanos. Isso é o que nos caracteriza. Quanto mais o conhecemos, mais conhecemos a Jesus, seu Bem-amado. O irmão Carlos não é apenas um ícone para ser venerado. Ele é um convite vivo, uma pessoa que toca em nosso profundo desejo de seguir a Jesus.

No que diz respeito ao chamado para ser um irmão universal, o irmãozinho Antoine Chatelard sublinha: “trata-se de ser um irmão antes de pensar em ser universal”. Como disse irmã Kathleen, na vida do irmão Carlos, a intuição de ser um irmão universal ocorreu, pela primeira vez, em outubro de 1901, quando o ele mudou-se para Beni Abbès. Graças à generosidade de sua prima Marie, ele conseguiu comprar um terreno, estrategicamente localizado a meio caminho, entre as cidades fortificadas e a guarnição francesa. Ele construiu, com a ajuda do exército francês, um pequeno mosteiro cercado por fileiras de grandes pedras. E esta é a chave. “Ele mesmo, raramente ultrapassava este limite, mas qualquer um podia entrar. Ele queria ser um irmão universal neste contexto de conflito envolvendo muitas partes opostas “(p.16).

Foi um momento de clarividência! O chamado para ser um irmão universal é, acima de tudo, o chamado para ser irmão. Para Irmão Carlos, ser irmão significa permanecer no meio, entre muitos lados opostos (nem preto e nem branco, mas cinza), o que não é a mesma coisa que estar no centro. Um irmão está imerso, enraizado, no meio da realidade com todos seus paradoxos, suas tensões e seus complexos pontos de crescimento, e nunca abandona sua posição. Se ele sai e se afasta do meio, acaba se tornando particular. Quando ele abraça um, acaba excluindo o outro. Ele não é um guardião de muros, que não tem posição concreta sobre questões sociais, políticas, econômicas, culturais ou mesmo eclesiais. Ao contrário, ele está bem informado sobre os acontecimentos e se posiciona sobre tudo. Quando opta pelos pobres e marginalizados, ele inclui os ricos. Precisamente, é somente estando no meio das coisas que ele pode abraçar todas as coisas como um irmão universal. E foi só então neste momento, graças a essa percepção evolutiva, que o irmão Carlos começou a chamar sua casa não de eremitério (onde vivia enclausurado, de acordo com uma regra de vida monástica), mas de Fraternidade, onde qualquer um poderia vir e ser bem acolhido.

No teto de sua casa, ele pinta a imagem do Sagrado Coração de Jesus, com os braços bem abertos para acolher quem quer que venha em sua fraternidade. Sua devoção e proximidade ardente com o Sagrado Coração de Jesus leva-o a imitar Jesus Caritas, o Irmão Universal por excelência, do qual ele é apenas um humilde testemunho que mostra Jesus.

Irmãos, agradeço por ler minha longa carta com generosa paciência. Eu continuo mantendo vocês, suas fraternidades e dioceses em minha oração, e rezo por todos os países. Por favor, orem por mim também, seu irmãozinho servidor.

No amor de Jesus, um grande e fraterno abraço

Eric Lozada

PDF: CARTA DO RESPONSÁVEL GERAL AOS IRMÃOS DO MUNDO – PT

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO: A boa política está ao serviço da Paz

PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ
1º DE JANEIRO DE 2019

1. «A paz esteja nesta casa!»

Jesus, ao enviar em missão os seus discípulos, disse-lhes: «Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “A paz esteja nesta casa!” E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós» (Lc 10, 5-6).

Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz.[1] A «casa», de que fala Jesus, é cada família, cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é cada pessoa, sem distinção nem discriminação alguma. E é também a nossa «casa comum»: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude.

Eis, pois, os meus votos no início do novo ano: «A paz esteja nesta casa!»

2. O desafio da boa política

A paz parece-se com a esperança de que fala o poeta Carlos Péguy;[2] é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência. Como sabemos, a busca do poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição.

«Se alguém quiser ser o primeiro – diz Jesus – há de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35). Como assinalava o Papa São Paulo VI, «tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade».[3]

Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade.

3. Caridade e virtudes humanas para uma política ao serviço dos direitos humanos e da paz

O Papa Bento XVI recordava que «todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis. (…) Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. (…) A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana».[4] Trata-se de um programa no qual se podem reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade.

A propósito, vale a pena recordar as «bem-aventuranças do político», propostas por uma testemunha fiel do Evangelho, o Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002:

Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.
Bem-aventurado o político que não tem medo.[5]

Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito. Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras.

4. Os vícios da política

A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições. Para todos, está claro que os vícios da vida política tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam. Estes vícios, que enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social: a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio.

5. A boa política promove a participação dos jovens e a confiança no outro

Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que significa «fiome de ti e creio contigo» na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum. Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e capacidades de cada pessoa. «Que há de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4, 1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de diálogo».[6]

Cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum. A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Uma tal confiança nunca é fácil de viver, porque as relações humanas são complexas. Nestes tempos, em particular, vivemos num clima de desconfiança que está enraizada no medo do outro ou do forasteiro, na ansiedade pela perda das próprias vantagens, e manifesta-se também, infelizmente, a nível político mediante atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam em questão aquela fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa. Hoje, mais do que nunca, as nossas sociedades necessitam de «artesãos da paz» que possam ser autênticos mensageiros e testemunhas de Deus Pai, que quer o bem e a felicidade da família humana.

6. Não à guerra nem à estratégia do medo

Cem anos depois do fim da I Guerra Mundial, ao recordarmos os jovens mortos durante aqueles combates e as populações civis dilaceradas, experimentamos – hoje, ainda mais que ontem – a terrível lição das guerras fratricidas, isto é, que a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo. Manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade. Por esta razão, reiteramos que a escalada em termos deintimidação, bem como a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia. O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança. Ao contrário, deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas.

O nosso pensamento detém-se, ainda e de modo particular, nas crianças que vivem nas zonas atuais de conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus direitos sejam protegidos. No mundo, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados. O testemunho daqueles que trabalham para defender a dignidade e o respeito das crianças é extremamente precioso para o futuro da humanidade.

7. Um grande projeto de paz

Celebra-se, nestes dias, o septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada após a II Guerra Mundial. A este respeito, recordemos a observação do Papa São João XXIII: «Quando numa pessoa surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses direitos, como expressão da sua dignidade; nos demais, o dever de reconhecer e respeitar tais direitos».[7]

Com efeito, a paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:

– a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando «um pouco de doçura para consigo mesmo», a fim de oferecer «um pouco de doçura aos outros»;
– a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado…, tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;
– a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.

A política da paz, que conhece bem as fragilidades humanas e delas se ocupa, pode sempre inspirar-se ao espírito do Magnificat que Maria, Mãe de Cristo Salvador e Rainha da Paz, canta em nome de todos os homens: A «misericórdia [do Todo-Poderoso] estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes (…), lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre» (Lc 1, 50-55).

Vaticano, 8 de dezembro de 2018.

Franciscus


[1] Cf. Lc 2, 14: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado».
[2] Cf. Le Porche du mystère de la deuxième vertu (Paris 1986).
[3] Carta ap. Octogesima adveniens (14/V/1971), 46.
[4] Carta enc. Caritas in veritate (29/V/2009), 7.
[5] Cf. «Discurso na Exposição-Encontro “Civitas” de Pádua»: Revista 30giorni (2002-nº 5).
[6] Bento XVI, Discurso às Autoridades do Benim (Cotonou, 19/XI/2011).
[7] Carta enc. Pacem in terris (11/IV/1963), 24 (44).

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PDF: PF 1_1_2019 pt