{"id":962,"date":"2015-04-07T08:38:12","date_gmt":"2015-04-07T07:38:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.iesuscaritas.org\/?p=962"},"modified":"2015-04-07T08:38:12","modified_gmt":"2015-04-07T07:38:12","slug":"portugues-entrevista-a-dom-edson-damian","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/entrevistas\/portugues-entrevista-a-dom-edson-damian\/","title":{"rendered":"Entrevista a Dom  Edson DAMIAN"},"content":{"rendered":"<p>Ol\u00e1, Dom Edson.<\/p>\n<p>Conforme conversamos mais cedo, por telefone, envio abaixo as quest\u00f5es que pensei para a nossa entrevista. N\u00f3s vamos public\u00e1-la na quarta-feira antes da P\u00e1scoa, e ela ficar\u00e1 no ar at\u00e9 o domingo de P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 limites de p\u00e1ginas, ent\u00e3o, fique \u00e0 vontade para responder tudo que achar pertinente. O senhor acha que \u00e9 poss\u00edvel devolver as respostas at\u00e9 sexta-feira ou segunda?<\/p>\n<p>Obrigada, novamente, pela gentileza.<br \/>\nPor favor, confirme o recebimento das quest\u00f5es. Abra\u00e7o.<\/p>\n<p>Perguntas:<\/p>\n<p><em><strong>1.-<\/strong> Quando o senhor foi nomeado bispo em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, disse que esse seria o \u201cdesafio imenso da \u00faltima etapa\u201d da sua vida. Como tem sido viver esse desafio diariamente?<\/em><\/p>\n<p>Confesso que tive d\u00favidas e medo quando foi chamado para ser bispo da Igreja do Rio Negro. Fui tentado a n\u00e3o aceitar. Depois de tr\u00eas dias de solid\u00e3o e ora\u00e7\u00e3o com monges cartuxos no Mosteiro de Santa Maria, RS, minha diocese de origem, dois motivos me levaram a dizer sim. Dei-me conta de que tudo o que sou recebi de Deus e da Igreja, minha m\u00e3e. Deus sempre se excedeu em generosidade e miseric\u00f3rdia para comigo. A Igreja me acolheu desde os 12 anos, me formou e me confiou o minist\u00e9rio presbiteral. Recusar o chamado seria uma ingratid\u00e3o a Deus \u00e9 \u00e0 Igreja. Al\u00e9m disso, pesou muito a imensa d\u00edvida social que temos com os Povos Ind\u00edgenas, v\u00edtimas dos cru\u00e9is massacres, genoc\u00eddios e escravid\u00e3o perpetrados pelos brancos civilizados e crist\u00e3os. Inspirado no lema: \u201cCom Jesus amar e servir\u201d (os Povos Ind\u00edgenas) foi ordenado bispo no dia 24 de maio de 2009, em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira. Realizar esta celebra\u00e7\u00e3o no meio de uma multid\u00e3o de parentes ind\u00edgenas criou empatia, proximidade e confian\u00e7a m\u00fatua desde o in\u00edcio. Eles me acolheram com dan\u00e7as ao som de flautas. O paj\u00e9 M\u00e1rio me transmitiu a for\u00e7a para conduzir o povo, antes da imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os dos bispos. A seguir, colocaram-me o cocar, a cruz de pau Brasil e me entregaram o bast\u00e3o de paj\u00e9.<\/p>\n<p>\u201cO desafio imenso da \u00faltima etapa de minha vida\u201d est\u00e1 sendo uma gra\u00e7a imerecida. Quando visito as comunidades das aldeias distantes ao longo dos rios, sempre algu\u00e9m sa\u00fada como \u201cexcel\u00eancia, nosso pastor\u201d. Costumo retribuir dizendo que excel\u00eancias s\u00e3o eles que vivem t\u00e3o isolados, abandonados pelo poder p\u00fablico, expostos \u00e0s intemp\u00e9ries, dispondo apenas do m\u00ednimo indispens\u00e1vel para sobrevier. Mesmo assim, sabem partilhar tudo o que possuem na hora da \u201cquinhapira\u201d ap\u00f3s as celebra\u00e7\u00f5es, num clima de descontra\u00e7\u00e3o e grande alegria. Neste momentos cantam: \u201cOs crist\u00e3os tinham tudo em comum\u201d, \u201cP\u00e3o em todas as mesas\u201d.<\/p>\n<p>Com a exce\u00e7\u00e3o de uma par\u00f3quia onde a metade das comunidades s\u00e3o evang\u00e9licas, as demais par\u00f3quias do interior s\u00e3o todas cat\u00f3licas. Cada uma tem o seu catequista que preside o culto dominical e prepara para os sacramentos. Os padres procuram realizar quatro visitas por ano. Todos gostam muito de fazer a confiss\u00e3o. A maioria come\u00e7a dizendo: \u201cvou confessar na minha l\u00edngua\u201d. E soltam o verbo. Na visita \u201cad limina\u201d, quando relatei este fato ao Papa Bento XVI, ele logo me perguntou: \u201cE voc\u00ea entende todas as l\u00ednguas?\u201d Imposs\u00edvel, respondi, pois s\u00e3o dezoito e muito diferentes uma da outra. Mas, como foi Deus Pai quem criou todos os povos e l\u00ednguas e \u00e9 Ele quem perdoa, compete a Ele entender-se com seus \u00edndios!<\/p>\n<p>Muitas comunidades costumam reunir-se todas as manh\u00e3s para escutar o Evangelho do dia, rezar e cantar. Em seguida tomam o mingau e partem para os trabalhos na ro\u00e7a. As crian\u00e7as ficam aos cuidados das pessoas idosas e v\u00e3o \u00e0 escola.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>2.-<\/strong> Pode nos dar um panorama geral da regi\u00e3o onde vive e atua? Quais s\u00e3o as dificuldades de viver numa \u00e1rea de fronteira, especialmente a\u00ed, onde circula o narcotr\u00e1fico?<\/em><\/p>\n<p>A Diocese de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira est\u00e1 situada ao noroeste no Estado do Amazonas. Abrange os munic\u00edpios de Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e S\u00e3o Gabriel da Cachoeira. Ocupa uma \u00e1rea de 293.000Km\u00b2, maior que o estado de S\u00e3o Paulo ou equivalente \u00e0 It\u00e1lia, sem a Sicilia.<\/p>\n<p>Atravessada em toda a sua extens\u00e3o pelo Rio Negro e seus numerosos afluentes, \u00e9 uma regi\u00e3o coberta por florestas equatoriais. Limita-se ao norte com a Col\u00f4mbia e Venezuela, a leste com Manaus, ao sul com os munic\u00edpios de Coari e Tef\u00e9. Pelos contornos geogr\u00e1ficos, a regi\u00e3o \u00e9 conhecida com \u201cCabe\u00e7a do Cachorro\u201d.<\/p>\n<p>Aproximadamente 95% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda por Povos Ind\u00edgenas. Ainda existem 23 etnias e s\u00e3o faladas 18 l\u00ednguas. Na cidade de S\u00e3o Gabriel, al\u00e9m do portugu\u00eas, outras tr\u00eas l\u00ednguas s\u00e3o consideradas oficiais: Tukano, Baniwa e Nheengatu ou L\u00edngua Geral.<\/p>\n<p>A Diocese est\u00e1 dividida em 10 par\u00f3quias. Subindo o Rio Negro, encontra-se a par\u00f3quia de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o no munic\u00edpio de Barcelos. A segir, situa-se a par\u00f3quia de Santa Isabel do Rio Negro. Chegando em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, h\u00e1 duas par\u00f3quias: Par\u00f3quia S\u00e3o Gabriel Arcanjo, sede da Catedral, e a par\u00f3quia S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco que congrega v\u00e1rias vilas.<\/p>\n<p>No interior da Diocese est\u00e3o localizadas seis par\u00f3quias. No Tri\u00e2ngulo da etnia Tukana encontram-se a Par\u00f3quia de S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco no rio Tiqui\u00e9, distrito de Pari Cachoeira, a par\u00f3quia do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus no Rio Uaup\u00e9s, no distrito de Taraqu\u00e1 e a par\u00f3quia de S\u00e3o Miguel Arcanjo, no distrito de Yauaret\u00ea, no rio Uaup\u00e9s<\/p>\n<p>Ao longo do Rio Negro encontra-se a par\u00f3quia S\u00e3o Sebasti\u00e3o, no distrito de Cucu\u00ed, na fronteira com a Col\u00f4mbia e a Venezuela. A par\u00f3quia Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o est\u00e1 espalhada ao longo do rio I\u00e7ana e seus afluentes. Por fim, a par\u00f3quia Nossa Senhora de Lourdes no distrito de Maturac\u00e1, onde vivem os \u00edndios Yanomami. Nesta regi\u00e3o encontra-se o Pico da Neblina com 3.014ms, o ponto mais elevado do Brasil. Apesar de ser dif\u00edcil o acesso, ainda sonho escal\u00e1-lo um dia.<\/p>\n<p>As par\u00f3quias s\u00e3o atendidas por 18 presb\u00edteros: 10 salesianos de Dom Bosco, SDB; 02 Mission\u00e1rios do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o, MSC; 02 padres diocesanos ind\u00edgenas; 04 Fidei Donum de v\u00e1rias dioceses que trabalham com tempo determinado.<\/p>\n<p>Merece destaque a presen\u00e7a de aproximadamente 30 irm\u00e3s Filhas de Maria Auxiliadora, 12 das quais provenientes de v\u00e1rias etnias ind\u00edgenas da regi\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m duas Irm\u00e3s e tr\u00eas novi\u00e7as Catequistas Franciscanas. Estas mission\u00e1rias dedicam-se \u00e0 educa\u00e7\u00e3o da juventude nas escolas, \u00e0 pastoral da sa\u00fade e colaboram como animadoras de v\u00e1rias pastorais. Lembro com gratid\u00e3o a Ir. Irene Oliveira de Mello com 93 anos e h\u00e1 68 anos trabalhando nas comunidades do Rio Negro. Atualmente toma conta da cozinha da comunidade que recebe jovens ind\u00edgenas que fazem discernimento para a vida religiosa.<\/p>\n<p>Treze seminaristas ind\u00edgenas de diferentes etnias estudam no Semin\u00e1rio Arquidiocesano de Manaus: nove na filosofia e quatro na teologia. S\u00e3o a esperan\u00e7a de uma Igreja aut\u00f3ctone com rosto ind\u00edgena. J\u00e1 tive a gra\u00e7a de conferir a ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal a dois padres diocesanos e tr\u00eas salesianos. Todos ind\u00edgenas de diferentes etnias.<\/p>\n<p>A \u00fanica via de comunica\u00e7\u00e3o e transporte s\u00e3o os rios. Devido \u00e0s longas dist\u00e2ncias, muitas comunidades s\u00e3o visitadas pelos padres somente uma ou duas vezes por ano. Durante o ano, s\u00e3o lideran\u00e7as leigas que coordenam as pastorais, d\u00e3o a catequese e presidem os cultos dominicais. Recebem forma\u00e7\u00e3o e subs\u00eddios tanto da diocese como da par\u00f3quia.<\/p>\n<p>Com a demarca\u00e7\u00e3o e homologa\u00e7\u00e3o de mais de 90% das terras de S\u00e3o Gabriel, os Povos Ind\u00edgenas est\u00e3o recuperando tamb\u00e9m a sua identidade e sua cultura. Est\u00e3o nascendo mais crian\u00e7as. O fato de 60% da popula\u00e7\u00e3o se encontrar estudando, do ensino fundamental ao universit\u00e1rio, revela a alta faixa et\u00e1ria de pessoas com menos de 30 anos.<\/p>\n<p>Bem diversa, por\u00e9m, \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas e caboclos ribeirinhos de Barcelos (122.000 Km quadrados!) e Santa Isabel. Cada vez que alguma equipe da FUNAI anda por l\u00e1 para iniciar o processo da demarca\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas, as autoridades locais provocam uma verdadeira guerra. E o que esperar do atual Congresso Nacional? De acordo com estudo do\u00a0Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o Congresso Nacional, \u00e9 conservador socialmente, atrasado do ponto de vista dos direitos humanos, temer\u00e1rio em quest\u00f5es ambientais, liberal economicamente e pulverizado partidariamente. E se forem aprovadas a PEC 215\/2000 e a PLC 277\/2012 os direitos dos ind\u00edgenas aprovados a duras penas na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 ir\u00e3o todos para o brejo. N\u00e3o surpreende que dos quase 50 deputados listados na Comiss\u00e3o Especial que analisar\u00e1 a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215\/2000, pelo menos 20 tiveram suas campanhas eleitorais financiadas por grandes empresas do agroneg\u00f3cio, minera\u00e7\u00e3o, energia, madeireiras e bancos. A PEC transfere do governo federal para o Congresso o poder de demarcar Terras Ind\u00edgenas, titular \u00e1reas quilombolas e criar Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o (UCs). Na pr\u00e1tica, se aprovado, o projeto deve significar a paralisa\u00e7\u00e3o definitiva da oficializa\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas protegidas.<\/p>\n<p>O narcotr\u00e1fico existe principalmente na fronteira com a Col\u00f4mbia. O ex\u00e9rcito est\u00e1 presente na regi\u00e3o mais de 2000 soldados e vigia as fronteiras atrav\u00e9s de 07 PEFs \u2013 Pelot\u00f5es Especiais de Fronteira. Acontece que os \u00edndios transitam pela floresta atrav\u00e9s de igarap\u00e9s e varadouros e conseguem passar as drogas principalmente durante a noite.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>3.-<\/strong> Como \u00e9 trabalhar na diocese mais isolada do Brasil? Quais s\u00e3o as dificuldades e aprendizados de estar atuando na Amaz\u00f4nia?<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o Gabriel \u00e9 a diocese mais isolada, mais ind\u00edgena e mais pobre do Brasil. De Manaus, subindo pelo Rio Negro, a dist\u00e2ncia \u00e9 de 1200 quil\u00f4metros. H\u00e1 dois barcos semanais, \u00e0s ter\u00e7as e sextas-feiras. Partem tanto de Manaus como de S\u00e3o Gabriel. A lancha ou expresso demora 24 hs, com breves paradas em Barcelos e Santa Isabel. O barco maior, onde cada um se acomoda na sua pr\u00f3pria rede, leva dois dias e meio e at\u00e9 tr\u00eas. Percorre-se as regi\u00f5es mais belas e melhor preservadas da Amaz\u00f4nia. Calcula-se que menos de 3% da mata foi derrubada. Por enquanto, estamos livres da destrui\u00e7\u00e3o das madeireiras e do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Engana-se quem pensa que as terras desta regi\u00e3o s\u00e3o f\u00e9rteis e produtivas. A maior parte delas s\u00e3o arenosas e \u00e1ridas. Necessitariam de v\u00e1rios corretivos e insumos para produzir. Como quase tudo procede de Manaus, o transporte encarece tanto os produtos que n\u00e3o compensa plant\u00e1-los aqui. Os mission\u00e1rios tentaram introduzir o plantio de arroz, milho, feij\u00e3o, mas n\u00e3o obtiveram resultado. O que garante a sobreviv\u00eancia dos ind\u00edgenas \u00e9 o cultivo da mandioca. Quando cheguei aqui, conheci a Sra Manoela Carneiro da Cunha, considerada a m\u00e3e da antropologia ind\u00edgena. Contou-me que agr\u00f4nomos do ISA \u2013 Instituto S\u00f3cio Ambiental, atuando na \u00e1rea desde 1990, descobriam que os \u00edndios conhecem aproximadamente 300 esp\u00e9cies de mandioca. Estavam fazendo um banco de dados para preservar este cultivo milenar que fornece o p\u00e3o nosso de cada dia.<\/p>\n<p>Quem planta e cultiva a ro\u00e7a \u00e9 a mulher. Aqui h\u00e1 um dado muito interessante. Os casamentos s\u00e3o inter-\u00e9tnicos, isto \u00e9, um \u00edndio sempre casa com uma mulher de outra etnia. Ao deixar sua aldeia de origem, ela leva consigo, como parte importante do seu enxoval, as manivas (as ramas) das esp\u00e9cies de mandioca que ela aprendeu cultivar com sua m\u00e3e e av\u00f3. Assim as esp\u00e9cies v\u00e3o se multiplicando.<\/p>\n<p>Da mandioca fazem a farinha, o beiju, a tapioca, o mingau, a maniquera, o arub\u00e9, o caxiri, a ma\u00e7oca, o tucupi, o curad\u00e1, o bejuchique e outros alimentos de acordo com a criatividade das mulheres. Em 2010, o IPHAN \u2013 Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional \u2013 outorgou \u00e0 ro\u00e7a o M\u00e9dio e Alto Rio Negro o merecido t\u00edtulo de Patrim\u00f4nio Imaterial do Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que os derivados da mandioca se tornam mais saborosos quando acompanhados com pescados: quinhapira (quinha-pimenta, pira-peixe), mujeca, cudiari ou com carne de ca\u00e7a: anta, paca, cotia, tatu, macaco. etc. Nas visitas pastorais passo semanas inteiras convivendo e me alimentando com os parentes ind\u00edgenas. E dormindo na rede que sempre me acompanha.<\/p>\n<p>Nas horas intermin\u00e1veis sentado na \u201cvoadeira\u201d para visitar as comunidades ribeirinhas consigo ler livros inteiros. Quando estou na sede, sobra-me pouco tempo, pois os \u00edndios gostam de retribuir a visita e me procuram muito. Quando n\u00e3o me encontram e informam que estou em alguma atividade fora da Diocese, dizem: \u201c O bispo vive passeando\u201d . Quando ficam sabendo que estou visitando uma par\u00f3quia se conformam um pouco: \u201cPelo menos est\u00e1 visitando nossos parentes\u201d!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>4.-<\/strong> Em que consiste a sua a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria? O que o senhor entende por \u201cmiss\u00e3o\u201d e como \u00e9 fazer miss\u00e3o numa regi\u00e3o t\u00e3o plural, onde h\u00e1 22 etnias ind\u00edgenas diferentes?<\/em><\/p>\n<p>Os primeiros mission\u00e1rios que chegaram ao Rio Negro, em 1690, foram os jesu\u00edtas. Depois viram os carmelitas e os franciscanos. Dom Frederico Costa, segundo bispo de Manaus, empreendeu em 1907 uma memor\u00e1vel viagem pelos rios Negro e Uaup\u00e9s. Constatou a condi\u00e7\u00e3o de abandono material e espiritual em que vivia a popula\u00e7\u00e3o. Ouviu o clamor dos \u00edndios: \u201cSalva-nos dos comerciantes e dos policiais\u201d- como ele narra na Carta Pastoral escrita pouco depois. Do seu apelo ao Papa Pio X resultou a cria\u00e7\u00e3o da Prefeitura Apost\u00f3lica, confiada \u00e1 Congrega\u00e7\u00e3o Salesiana, em 1914. A partir de 1915, coube aos filhos de Dom Bosco iniciar a constru\u00e7\u00e3o de igrejas, escolas, pequenos hospitais, empreendimento que \u201cexigiu muito suor e muito dinheiro\u201d, como preconizou Pio X ao enviar os primeiros mission\u00e1rios. No dia 24 de maio deste ano celebraremos o centen\u00e1rio da chegada dos Salesianos a S\u00e3o Gabriel da Cachoeira. Realizaram uma obra extraordin\u00e1ria. Praticamente todos os pr\u00e9dios hoje existentes foram constru\u00eddos por eles. Poucos anos depois vieram tamb\u00e9m as Filhas de Maria Auxiliadora. Vale ressaltar que at\u00e9 1990 o Estado esteve praticamente ausente nesta regi\u00e3o. Era a Igreja que cuidava tamb\u00e9m da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade dos Povos Ind\u00edgenas. Nos cemit\u00e9rios de todas as par\u00f3quias h\u00e1 sepulturas de mission\u00e1rias e mission\u00e1rios salesianos. Quando se despediam de seus familiares, sabiam que nunca mais retornariam. Fiz esta breve mem\u00f3ria hist\u00f3rica como gratid\u00e3o pelos mission\u00e1rios que nos precederam.<\/p>\n<p>O Conc\u00edlio Vaticano II trouxe profundas mudan\u00e7as para a vida e a miss\u00e3o da Igreja. No decreto sobre a atividade mission\u00e1ria da Igreja est\u00e1 conceito \u201cSemina Verbi\u201d (Ad Gentes, 11), a Palavra que Deus semeia nas culturas de todos os povos. O Esp\u00edrito Santo age no cora\u00e7\u00e3o das pessoas e das culturas antes da chegada do mission\u00e1rio. Mas, este \u00e9 o assunto da pr\u00f3xima pergunta<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>5.-<\/strong> Como o Evangelho se relaciona com as culturas e religiosidades ind\u00edgenas? Como os ind\u00edgenas vivem a sua f\u00e9?<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 faz alguns anos que o Pe Justino Rezende, salesiano da etnia Tuyuca, primeiro padre ind\u00edgena do Rio Negro, encontrou uma diretriz que orienta nossa a\u00e7\u00e3o evangelizadora: \u201cA boa nova das culturas ind\u00edgenas acolhe a Boa Nova de Jesus\u201d.<\/p>\n<p>Ano passado realizamos semanas intensivas sobre Catequese Ind\u00edgena Inculturada em todas as par\u00f3quias. Debru\u00e7amo-nos sobre os valores humanos que as 23 etnias viviam antes da chegada dos mission\u00e1rios e conservam at\u00e9 hoje. Alguns mesmo sendo proibidos, foram preservados na clandestinidade. Por exemplo, paj\u00e9s e benzedores realizam benzimentos em muitos momentos, de modo especial para cuidar e proteger a vida desde o ventre materno. Ao nascer a crian\u00e7a recebe o benzimento do nome ind\u00edgena. Esta pr\u00e1tica foi proibida pelos primeiros mission\u00e1rios, mas continuou sendo realizada clandestinamente. Hoje associamos est\u00e1 pr\u00e1tica ao batismo. O benzimento do nome integra a crian\u00e7a na cultura da sua etnia, confere-lhe a identidade ind\u00edgena. Ao receber o batismo crist\u00e3o, \u00e9 inserida na grande fam\u00edlia do Povo de Deus, a Igreja que abarca todos os povos e culturas. Na celebra\u00e7\u00e3o da Crisma, os jovens trazem no crach\u00e1 o nome de benzimento e de batismo. S\u00e3o confirmados na f\u00e9 crist\u00e3 que acolhe e ilumina os valores humanos e religiosos da sua cultura. A Diocese de Roraima ainda conserva o primeiro livro de registro de batismos. H\u00e1 nele algo muito curioso e original. Os monges beneditinos, evangelizadores dos ind\u00edgenas roraimenses a partir de 1908, ao registrar os batismos, ao lado do nome crist\u00e3o (geralmente o santo do dia) colocavam tamb\u00e9m o nome ind\u00edgena recebido em casa. Que bom seria se pud\u00e9ssemos resgatar novamente esta pr\u00e1tica nos registros de batismos e nos registros dos cart\u00f3rios civis!<\/p>\n<p>Poderia ainda discorrer sobre o \u201cajuri\u201d, o trabalho comunit\u00e1rio; a \u201cquinhapira\u201d, a refei\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria; as \u201crela\u00e7\u00f5es de parentesco\u201d que tornam os \u00edndios todos parentes; os numerosos \u201cbenzimentos\u201d e outros. Nos roteiros de catequese, em fase final de elabora\u00e7\u00e3o, relacionamos a boa nova destes valores com a Boa Nova de Jesus. A \u201cquinhapira\u201d tem tudo a ver com a partilha dos bens, com a Eucaristia. As \u201crela\u00e7\u00f5es de parentesco\u201d explicita o sonho da fraternidade universal: somos diferentes, falamos 18 l\u00ednguas, mas somos profundamente iguais em dignidade e diretos. Nas rela\u00e7\u00f5es de parentesco h\u00e1 algo original entre ind\u00edgenas rionegrinos: os casamentos s\u00e3o inter-\u00e9tnicos. Por exemplo, um ind\u00edgena Tariano nunca se casa com uma mulher da mesma etnia, mas procura uma mulher Desano, Arapaso ou Piratapuia&#8230; Assim, a crian\u00e7a primeiro aprende a l\u00edngua da m\u00e3e. Depois, se for menino, acompanhando as atividades do pai aprender\u00e1 a l\u00edngua paterna. Na escola aprende portugu\u00eas. Na extensa fronteira com a Col\u00f4mbia e Venezuela, aprende tamb\u00e9m o espanhol. S\u00e3o quase todos poliglotas.<\/p>\n<p>Gostaria de lembrar aqui duas visitas do Cardeal Dom Cl\u00e1udio Hummes, presidente da Comiss\u00e3o Episcopal para a Amaz\u00f4nia. Foi meu professor de filosofia no Semin\u00e1rio de Viam\u00e3o, RS. Devo agradecer-lhe porque come\u00e7ou a visitar a Amaz\u00f4nia a partir de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira. Antes das orienta\u00e7\u00f5es do Papa Francisco, escolheu uma periferia geogr\u00e1fica e existencial. Na primeira visita aben\u00e7oou a Fazenda da Esperan\u00e7a. Na segunda vez veio a pedido do Papa Francisco. Quis acompanhar uma semana da Catequese Ind\u00edgena Inculturada. Andou conosco dez horas de \u201cvoadeira\u201d (bote de alum\u00ednio com motor de popa), exposto ao sol abrasador. Apesar dos seus 80 anos, n\u00e3o manifestou cansa\u00e7o e nem sentiu dores na coluna. Acompanhou atentamente cinco dias de partilha e forma\u00e7\u00e3o com setenta catequistas ind\u00edgenas na par\u00f3quia de Yuaret\u00ea. No fim concordou em concelebrar a missa em Tukano e apoiou-nos para buscar a aprova\u00e7\u00e3o da Santa S\u00e9.<\/p>\n<p>Economicamente, o que mais pesa para a diocese s\u00e3o os combust\u00edveis. Para realizar uma viagem de ida e volta a Pari Cachoeira, a par\u00f3quia mais distante, gasta-se mais de R$ 4.000, reais, e quase dois dias de viagem. E deve-se carregar o combust\u00edvel tamb\u00e9m para a volta. Por isso, nas visitas pastorais, chamadas de \u201citiner\u00e2ncias\u201d, para compensar o custo t\u00e3o alto, costumo permanecer at\u00e9 15 dias para poder visitar o maior n\u00famero poss\u00edvel de aldeias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>6.-<\/strong> Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o das diferentes etnias ind\u00edgenas na regi\u00e3o em que o senhor atua, na Amaz\u00f4nia? Quais s\u00e3o as maiores dificuldades e desafios que esses povos enfrentam?<\/em><\/p>\n<p>Algo que chocou os primeiros mission\u00e1rios foi constatar que, apesar das rela\u00e7\u00f5es de parentesco, algumas etnias eram tratadas com inferiores. Os mission\u00e1rios procuraram afast\u00e1-los daqueles que, inclusive os exploravam no trabalho. Mesmo assim, ainda hoje estas etnias vivem muito pobres, marginalizadas e vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Talvez poucos saibam que o Rio Negro \u00e9 chamado de \u201crio da fome\u201d. Comparando com os grandes rios da Amaz\u00f4nia (Solim\u00f5es, Madeira, Japur\u00e1), abundantes de peixes durante o ano inteiro, o Negro, apesar de ser o maior afluente do Amazonas, tem poucos peixes. N\u00e3o d\u00e1 nem para saciar a fome de uma popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente 100.000 habitantes. Os peixes n\u00e3o gostam das \u00e1guas escuras porque s\u00e3o \u00e1cidas. Al\u00e9m disso, grande extens\u00e3o do leito do rio tem muitas pedras, outro obst\u00e1culo para a reprodu\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca das cheias, a situa\u00e7\u00e3o torna-se dram\u00e1tica, pois os escassos peixes passeiam nas imensas \u00e1reas alagadas \u2013 os igap\u00f3s- em busca de frutas e outros alimentos e a pesca torna-se ainda mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Doen\u00e7as muito frequentes como diarr\u00e9ia, pneumonia, tuberculose s\u00e3o causadas pela subnutri\u00e7\u00e3o. O \u00edndice de mortalidade infantil \u00e9 muito elevado. A Pastoral da Crian\u00e7a presente e atuante est\u00e1 ajudando muito.<\/p>\n<p>\u00c9 urgente, portanto, cuidar da seguran\u00e7a alimentar atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de peixes em viveiros, da cria\u00e7\u00e3o de aves e outros animais de pequeno porte. Nisso, por\u00e9m, h\u00e1 dois problemas. A ra\u00e7\u00e3o para os peixes \u00e9 muito dispendiosa, levando em conta que todo deve vir de Manaus. Al\u00e9m disso, os \u00edndios acham que os animais dom\u00e9sticos devem procurar a pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o assim como fazem as pacas, cotias, tutus e antas.<\/p>\n<p>Outro grave problema \u00e9 o alcoolismo que acompanha muitos de nossos irm\u00e3os ind\u00edgenas. Mesmo sendo proibida nas aldeias ind\u00edgenas, a malvada da pinga acaba chegando em toda a parte. E quando eles v\u00eam \u00e0 cidades para retirar os ben\u00e9ficos sociais e fazer as compras, muitos n\u00e3o resistem a tenta\u00e7\u00e3o de enfiar a cabe\u00e7a no pote e bebem at\u00e9 capotar. E quando bebem tornam-se agressivos e briguentos. H\u00e1 tr\u00eas anos, com muito sacrif\u00edcio, a Diocese construiu uma Fazenda da Esperan\u00e7a para ajudar na recupera\u00e7\u00e3o dos drogados. Tem ajudado a v\u00e1rios, mas n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de acolher a muitos que precisariam.<\/p>\n<p>Outros grandes desafios: preservar o rico patrim\u00f4nio das culturas e l\u00ednguas face ao rolo compressor da globaliza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, impedir a derrubada da floresta, vencer o fasc\u00ednio de migrar para as cidades. \u00c9 preocupante a contradi\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia que possui \u00e1reas imensas despovoadas e uma popula\u00e7\u00e3o que se concentra cada vez mais nas grandes e ca\u00f3ticas cidades.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>7.-<\/strong> Que avalia\u00e7\u00e3o o senhor faz dos dois anos do pontificado do Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p>Depois de longo e tenebroso inverno, estava morrendo de saudade de um novo Jo\u00e3o XXIII. E de repente o Esp\u00edrito Santo nos enviou Francisco. Como Jo\u00e3o XXIII, o Papa Francisco \u00e9 um crist\u00e3o vestido de Evangelho na sede de Pedro. Transcorridos dois anos, percebemos com clareza que os cardeais n\u00e3o apenas elegeram um Papa, mas tamb\u00e9m um programa. Cientes ou n\u00e3o, ao escolheram Francisco estavam permitindo que o fogo do Esp\u00edrito acendido na V Confer\u00eancia do CELAM em Aparecida (2007) fosse levado para Roma, para agitar o Vaticano e sacudir a Igreja Universal. A Confer\u00eancia de Aparecida marcou o momento de amadurecimento de uma teologia com enfoque evangelizador, mission\u00e1rio, com decidida op\u00e7\u00e3o pelos pobres que agora \u00e9 proposta para toda a Igreja atrav\u00e9s da l\u00facida e corajosa exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Evangelii Gaudium. Jamais um Papa apresentou um programa de renova\u00e7\u00e3o da Igreja t\u00e3o abrangente e que nos compromete e empolga a todos. Sua contagiante alegria, seus gestos espont\u00e2neos, suas atitudes repletas de calor humano, suas palavras claras e contundentes, nos comovem, nos encantam, nos arrastam para praticar o que nos prop\u00f5e. A revista Famiglia Cristiana divulgou uma pesquisa da Dem\u00f3polis que revela que Francisco tem 93% de aprova\u00e7\u00e3o entre os cat\u00f3licos e 70% entre ateus e seguidores de outras religi\u00f5es. Ele fala para a humanidade. A sua Igreja \u00e9 de todos porque \u00e9 uma casa de portas escancaradas como o cora\u00e7\u00e3o misericordioso do Pai.<\/p>\n<p>O modelo de Igreja que Francisco nos prop\u00f5e ele pr\u00f3prio o viveu nas periferias geogr\u00e1ficas e exist\u00eancias onde aprendeu a \u201cser pastor com cheiro de ovelha\u201d, como ele mesmo nos diz:<\/p>\n<p>\u201cSaiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter sa\u00eddo pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar \u00e0s pr\u00f3prias seguran\u00e7as. N\u00e3o quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsess\u00f5es e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consci\u00eancia \u00e9 que haja tantos irm\u00e3os nossos que vivem sem a for\u00e7a, a luz e a consola\u00e7\u00e3o da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de f\u00e9 que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos d\u00e3o uma falsa prote\u00e7\u00e3o, nas normas que nos transformam em ju\u00edzes implac\u00e1veis, nos h\u00e1bitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto l\u00e1 fora h\u00e1 uma multid\u00e3o faminta e Jesus repete-nos sem cessar: \u00abDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00bb (Mc 6, 37).<\/p>\n<p>Durante a Jornada Mundial da Juventude, quando falou aos bispos do Brasil, Francisco lembrou com \u00eanfase a miss\u00e3o na Amaz\u00f4nia. Apresentou \u201ca Amaz\u00f4nia como teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileira&#8230; A Igreja est\u00e1 na Amaz\u00f4nia, n\u00e3o como aqueles que t\u00eam as malas prontas na m\u00e3o para partir depois de terem explorado tudo o que puderam. Desde o in\u00edcio que a Igreja est\u00e1 presente na Amaz\u00f4nia com mission\u00e1rios, congrega\u00e7\u00f5es religiosas, sacerdotes, leigos e bispos, e l\u00e1 continua presente e determinante no futuro daquela \u00e1rea&#8230; Queria convidar todos a refletirem sobre o que Aparecida disse a prop\u00f3sito da Amaz\u00f4nia (nn. 83-87 e 475), incluindo o forte apelo ao respeito e \u00e0 salvaguarda de toda a cria\u00e7\u00e3o que Deus confiou ao homem, n\u00e3o para que a explorasse rudemente, mas que a tornasse um jardim&#8230; Gostaria de acrescentar que deveria ser mais incentivada e real\u00e7ada a obra da Igreja. Fazem falta formadores qualificados, especialmente professores de teologia, para consolidar os resultados alcan\u00e7ados no campo da forma\u00e7\u00e3o de um clero aut\u00f3ctone, inclusive para se ter sacerdotes adaptados \u00e0s condi\u00e7\u00f5es locais e consolidar, por assim dizer, o \u201crosto amaz\u00f4nico\u201d da Igreja. Nisto lhes pe\u00e7o, por favor, para serem corajosos, para terem parresia! No modo \u201cporte\u00f1o\u201d de lhes falar, lhes diria para serem \u201ccorajudos\u201d(destemidos) (Palavras do Papa Francisco no Brasil, Paulinas 2013, p 106-108)<\/p>\n<p>No dia 13 de mar\u00e7o, ao completar o segundo ano de sua elei\u00e7\u00e3o, o Papa Francisco nos surpreendeu com um grande presente. Anunciou o Ano Santo da Miseric\u00f3rdia. Num mundo frio e desfigurado pela globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a, obsecado pela idolatria do dinheiro que mata as pessoas, pela crueldade das guerras que matam milhares de indefesos e inocentes, ergue-se um surdo clamor por miseric\u00f3rdia. Francisco reassume as palavras prof\u00e9ticas de S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII: \u201cN\u00e3o \u00e9 Evangelho que muda, somos n\u00f3s que come\u00e7amos a compreend\u00ea-lo melhor\u201d. E na abertura do Vaticano II disse: \u201cA Igreja consegue mais com o rem\u00e9dio da miseric\u00f3rdia do que com o bast\u00e3o da severidade\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, n\u00e3o \u00e9 por acaso que a beatifica\u00e7\u00e3o de Dom Oscar Romero, engavetada na C\u00faria Romana, ocorra justamente com Francisco, primeiro Papa latino-americano e grande defensor de uma \u201cIgreja pobre para os pobres\u201d. Muitas palavras e gestos de Francisco j\u00e1 estavam em Romero, um pastor que viveu no meio dos pobres. A ele se poderiam aplicar o que Francisco disse aos novos cardeais: \u201cN\u00e3o se deixem dominar pelo medo de perder os salvos; pelo contr\u00e1rio tenham aud\u00e1cia de salvar os perdidos\u201d. A beatifica\u00e7\u00e3o de Dom Romero sem necessidade de provar um milagre ap\u00f3s ser proclamado m\u00e1rtir da f\u00e9, \u00e9 coerente com Francisco e respalda a luta pela justi\u00e7a social na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>8.-<\/strong> O senhor se identifica com as palavras do papa, de termos sempre presente o Evangelho e seguir o Evangelho? O que isso significa nos dias de hoje?<\/em><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao Evangelho, o amado Francisco de Roma se identifica com S\u00e3o Francisco de Assis que assumiu como programa de vida: \u201cGostaria de viver o Evangelho como Jesus o viveria se voltasse outra vez \u00e0 terra\u201d. \u201cO disc\u00edpulo n\u00e3o est\u00e1 acima do mestre; todo disc\u00edpulo bem formado ser\u00e1 como o mestre\u201d (Lc 6,40). \u201cA semelhan\u00e7a \u00e9 a medida do amor\u201d, ensina-nos o Beato Charles de Foucuald, outro apaixonado pelo amado Irm\u00e3o e Senhor Jesus. A profunda amizade do Papa Francisco com Jesus \u00e9 a espinha dorsal da Evangelii Gaudium. H\u00e1 nela passagens comoventes reveladoras desta amizade:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se pode perseverar numa evangeliza\u00e7\u00e3o cheia de ardor, se n\u00e3o se est\u00e1 convencido, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa ter conhecido Jesus ou n\u00e3o conhec\u00ea-Lo, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tateando, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa poder escut\u00e1-Lo ou ignorar a sua Palavra, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa poder contempl\u00e1-Lo, ador\u00e1-Lo, descansar n\u2019Ele ou n\u00e3o o poder fazer. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa procurar construir o mundo com o seu Evangelho em vez de o fazer unicamente com a pr\u00f3pria raz\u00e3o. Sabemos bem que a vida com Jesus se torna muito mais plena e, com Ele, \u00e9 mais f\u00e1cil encontrar o sentido para cada coisa. \u00c9 por isso que evangelizamos. O verdadeiro mission\u00e1rio, que n\u00e3o deixa jamais de ser disc\u00edpulo, sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa mission\u00e1ria. Se uma pessoa n\u00e3o O descobre presente no cora\u00e7\u00e3o mesmo da entrega mission\u00e1ria, depressa perde o entusiasmo e deixa de estar seguro do que transmite, faltam-lhe for\u00e7a e paix\u00e3o. E uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 convencida, entusiasmada, segura, enamorada, n\u00e3o convence ningu\u00e9m\u201d (EG 266).<\/p>\n<p>Francisco de Assis escutou Jesus lhe dizer: \u201cFrancisco, reconstr\u00f3i a minha Igreja que est\u00e1 em ru\u00ednas\u201d. Atrav\u00e9s do testemunho, das palavras e das propostas criativas e corajosas o Papa Francisco est\u00e1 nos convocando a renovar nossa Igreja com a urg\u00eancia do tempo messi\u00e2nico que exige de cada um de n\u00f3s escolhas decisivas (cf Mc 1,15).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>9.-<\/strong> Que reflex\u00e3o a Quaresma e a P\u00e1scoa ainda t\u00eam a nos oferecer?<\/em><\/p>\n<p>A P\u00e1scoa \u00e9 o acontecimento central da hist\u00f3ria do ser humano e do mundo. Revela o Amor infinito e a Miseric\u00f3rdia sem limites de Deus, \u201cpois Ele amou tanto o mundo, que deu o seu Filho \u00fanico, para que todo o que nele crer n\u00e3o morra, mas tenha a vida eterna\u201d (Jo 3,16).<\/p>\n<p>Tornar presente a P\u00e1scoa de Jesus, fazendo sua mem\u00f3ria, significa fazer acontecer hoje &#8211; na hist\u00f3ria do ser humano e do mundo &#8211; a passagem da morte para a vida que come\u00e7a agora e alcan\u00e7a a plenitude na festa que no c\u00e9u nunca se acaba.<\/p>\n<p>A vida toda de Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9 P\u00e1scoa, \u00e9 passagem. &#8220;Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10). \u201cEu vim para servir\u201d (Mc 10,45). Para cumprir sua miss\u00e3o libertadora Jesus se torna pr\u00f3ximo e solid\u00e1rio com todos os exclu\u00eddos da vida, com todos os descartados da sociedade. Por mais baixo que algu\u00e9m possa cair, nunca cair\u00e1 a baixo da Miseric\u00f3rdia de Deus.<\/p>\n<p>A P\u00e1scoa de Jesus se completa com sua morte na cruz e com sua Ressurrei\u00e7\u00e3o, vit\u00f3ria da vida sobre a morte. &#8220;Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 o fim\u201d (Jo 13, 1). &#8220;N\u00e3o existe amor maior do que dar a vida pelos amigos\u201d (Jo, 15,13).<\/p>\n<p>Fazer acontecer a P\u00e1scoa \u00e9 fazer acontecer o Amor onde a vida do ser humano e do mundo s\u00e3o amea\u00e7adas, negadas e assassinadas, nas periferias geogr\u00e1ficas e existenciais: dos \u00cdndios expulsos de suas terras; dos Negros discriminados e relegados ao \u00faltimo lugar; dos Moradores de Rua; dos Catadores de Lixo; dos Encarcerados; dos Sem-Terra; dos Sem-Moradia; dos Sem-Trabalho; dos Subempregados; dos Trabalhadores em condi\u00e7\u00e3o de trabalho escravo; dos Doentes que n\u00e3o s\u00e3o atendidos pela Sa\u00fade P\u00fablica; dos Doentes que morrem \u00e0 m\u00edngua por falta desse atendimento; das Crian\u00e7as e Jovens que t\u00eam uma Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica de baixa qualidade; das Crian\u00e7as e Jovens que se envolvem com as drogas por falta de Pol\u00edticas P\u00fablicas; das Crian\u00e7as e Jovens abandonados; dos Idosos abandonados; das Mulheres marginalizadas e violentadas; do Povo que n\u00e3o tem um Transporte P\u00fablico digno; das V\u00edtimas da Fome e Subnutri\u00e7\u00e3o; das V\u00edtimas do Tr\u00e1fico Humano para a explora\u00e7\u00e3o no trabalho; das V\u00edtimas do Tr\u00e1fico Humano para a explora\u00e7\u00e3o sexual; das V\u00edtimas do Tr\u00e1fico Humano para a extra\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os; das V\u00edtimas da Explora\u00e7\u00e3o da Terra e das \u00c1guas; das V\u00edtimas da Viol\u00eancia institucionalizada e de toda Viol\u00eancia; dos Descartados; de todos os Exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Tocando as chagas de Cristo nestas irm\u00e3s e irm\u00e3os crucificados de hoje \u00e9 que encontraremos o Ressuscitado. \u201cN\u00e3o precisamos de um curso de reciclagem para tocar no Deus vivo, mas simplesmente sair \u00e0s ruas indo procurar, encontrar e tocar as chagas de Cristo em quem \u00e9 pobre, fr\u00e1gil, marginalizado. Uma coisa que n\u00e3o \u00e9 simples, natural. Pe\u00e7amos a S\u00e3o Tom\u00e9 que nos d\u00ea a coragem de entrar nas feridas de Jesus com a nossa ternura e certamente teremos a gra\u00e7a de adorar o Deus vivo\u201d (Papa Francisco, Homilia 03\/07\/13).<\/p>\n<p>E vamos prosseguir concretizando o que cantamos na Campanha da Fraternidade:<\/p>\n<p>\u201cEm meio \u00e0s angustias, vit\u00f3rias e lidas,<br \/>\nno palco do mundo, onde a hist\u00f3ria se faz<br \/>\nsonhei uma Igreja a servi\u00e7o da vida.<br \/>\nEu fiz do meu povo os atores da paz!<\/p>\n<p>Quero uma Igreja solid\u00e1ria, servidora e mission\u00e1ria,<br \/>\nque anuncia e saiba ouvir. A lutar por dignidade,<br \/>\npor justi\u00e7a e igualdade, pois \u201cEu vim para servir\u201d!<\/p>\n<p>Preciso de gente que cure feridas<br \/>\nque saiba escutar, acolher, visitar.<br \/>\nQuero uma Igreja em constante sa\u00edda<br \/>\nde portas abertas, sem medo de amar!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>&#8211;<\/strong> Deseja acrescentar algo?<\/em><\/p>\n<p>Desejo transmitir um abra\u00e7o agradecido a toda equipe do IHU que presta um grande servi\u00e7o na comunica\u00e7\u00e3o da verdade sob a orienta\u00e7\u00e3o do amigo Pe In\u00e1cio Neutzling, SJ. Ofere\u00e7o um abra\u00e7o fraterno com votos de feliz P\u00e1scoa a voc\u00ea que teve paci\u00eancia de ler esta entrevista de um pobre bispo do cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Patricia Fachin<\/strong> &#8211; Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU (<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\">www.ihu.unisinos.br<\/a>)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ol\u00e1, Dom Edson. Conforme conversamos mais cedo, por telefone, envio abaixo as quest\u00f5es que pensei para a nossa entrevista. N\u00f3s vamos public\u00e1-la na quarta-feira antes da P\u00e1scoa, e ela ficar\u00e1 <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/entrevistas\/portugues-entrevista-a-dom-edson-damian\/\">Continue Reading &rarr;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[79],"tags":[],"class_list":["post-962","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=962"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/962\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":964,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/962\/revisions\/964"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}