{"id":4215,"date":"2019-12-12T18:20:24","date_gmt":"2019-12-12T17:20:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/?p=4215"},"modified":"2020-11-28T09:41:11","modified_gmt":"2020-11-28T08:41:11","slug":"portugues-o-pequeno-como-forca-para-grandes-entregas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/documentos\/portugues-o-pequeno-como-forca-para-grandes-entregas\/","title":{"rendered":"O pequeno como for\u00e7a para grandes entregas"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o onze anos que venho praticando com freq\u00fc\u00eancia o dia mensal de deserto. E, ainda\u00a0que seja dif\u00edcil apontar os frutos que esta experi\u00eancia tem amadurecido em mim (o essencial do\u00a0trabalho do Esp\u00edrito \u00e9 invis\u00edvel aos nossos olhos), posso afirmar, com muita mod\u00e9stia, que esta\u00a0pr\u00e1tica me fez mergulhar no sil\u00eancio interior, base da vida contemplativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meus dias de deserto, tenho conhecido as horas de alegria e a aridez, os encontros\u00a0l\u00facidos e serenos com o Senhor e as longas e aborrecidas esperas que parecem conduzir a nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia do deserto se revela sempre com um lance na aventura do cora\u00e7\u00e3o crente em busca do\u00a0seu Senhor. Por\u00e9m, no conjunto desses anos transcorridos, mantendo com assiduidade a pr\u00e1tica\u00a0do deserto, posso ver agora, com certa perspectiva, que os dias cinzentos n\u00e3o estavam, de\u00a0modo algum, mais longe do Senhor do que aqueles outros que nos pareciam luminosos e espl\u00eandidos; o essencial, do dia do deserto, \u00e9 esse desprendimento total, essa espera silenciosa\u00a0em Deus, vivida na inatividade e na ruptura com as ocupa\u00e7\u00f5es habituais.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">POR QUE UM DIA MENSAL DE DESERTO?<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fator \u201cperiodicidade\u201d joga um papel determinante nesta experi\u00eancia do dia do\u00a0deserto.trata-se de ir cultivando em n\u00f3s uma capacidade e uma necessidade de agendar que n\u00e3o\u00a0s\u00e3o filhas da improvisa\u00e7\u00e3o, do acaso. Naturalmente, a todos nos custa romper com nossas\u00a0ocupa\u00e7\u00f5es do dia a dia (achamo-nos t\u00e3o necess\u00e1rios na tarefa que cada um desempenha&#8230;!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Custa-nos tamb\u00e9m romper com nossos h\u00e1bitos e comodidade dom\u00e9stica, que nos proporciona<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certa seguran\u00e7a e fortaleza no conjunto de nossa imagem social. Pois bem. O dia de deserto obriga, ao menos uma vez por m\u00eas, a romper com a atividade\u00a0e as preocupa\u00e7\u00f5es prefixadas, para poder descobrir que todo trabalho tem ra\u00edzes mais\u00a0profundas das que ordinariamente lhe atribu\u00edmos e que caminhos batidos demais atrofiam ou\u00a0mant\u00e9m adormecidas algumas das nossas melhores qualidades. Quantas vezes, ao sair de manh\u00e3 bem cedo para o lugar do deserto, vendo os meus\u00a0vizinhos do bairro sa\u00edrem tamb\u00e9m, mas&#8230; para os seus trabalhos cotidianos, tenho chegado a\u00a0sentir vergonha e pensar que eu era privilegiado. Um dia inteiro para mim, para fazer o que eu\u00a0quisesse. Quem pode dispor, pensava eu, desde luxo? Submergido, por\u00e9m nos caminhos da\u00a0solid\u00e3o dos dias de deserto, encontrava a resposta a t\u00e3o acusadora inquietude. Sim, \u00e9 um\u00a0privil\u00e9gio, ou melhor, \u00e9 um dom que n\u00e3o se d\u00e1 a mim somente. \u00c9 uma gra\u00e7a que me ajuda a ser\u00a0mais aut\u00eantico em meu ser e em meu agir. Nesse sentido, torno-me mais aut\u00eantico e solid\u00e1rio\u00a0nos caminhos desses irm\u00e3os que n\u00e3o tem descoberto (e n\u00e3o \u00e9 por culpa deles) a necessidade de\u00a0uma pausa no caminho para sentir outras palpita\u00e7\u00f5es da vida que n\u00e3o se escutam entre o fazer,\u00a0o ser protagonista e o competir a quem nos for\u00e7a esta dura necessidade de sobreviver.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">COMO SE FAZ UM DIA DE DESERTO<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o dia do deserto n\u00e3o se deve preparar alguma coisa. \u00c9 necess\u00e1rio preparar-se (isto\u00a0sim) a si mesmo. N\u00e3o se deve ir ao deserto somente com o corpo. \u00c9 preciso levar o esp\u00edrito\u00a0convenientemente preparado mediante o desejo vivo do encontro com Deus. Esta disposi\u00e7\u00e3o de\u00a0\u00e2nimo deve vir propiciada por uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es externas que \u00e9 preciso cuidar com\u00a0esmero. Minha experi\u00eancia me adverte que, sem tais condi\u00e7\u00f5es, o deserto degenera com\u00a0facilidade num dia de campo, numa explos\u00e3o de paisagens, coisas ali\u00e1s boas de si, que podem\u00a0Ser integradas no dia do deserto, mas que jamais se podem comparar com ele. Estas condi\u00e7\u00f5es\u00a0m\u00ednimas podemos resumi-las assim:<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">CLIMA DE VERDADEIRA SOLID\u00c3O<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Buscar lugares distantes das pessoas. Esse espa\u00e7o melhor nos disp\u00f5e a nos encontrarmos\u00a0com as pessoas, das quais n\u00f3s antes t\u00ednhamos nos distanciado, sob outras perspectivas que n\u00e3o\u00a0seja o encontro massificado e barulhento de sempre.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">N\u00c3O OCUPAR O TEMPO COM LEITURAS<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A b\u00edblia, o Salt\u00e9rio, podem ajudar. No in\u00edcio dedicava-me a eles na maior parte do dia de\u00a0deserto. Pouco a pouco, por\u00e9m, tenho sentido a necessidade de prescindir tamb\u00e9m desses\u00a0 livros. A Palavra de Deus vai ressoando viva de outra maneira, por dentro.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">AUSTERIDADE NA COMIDA<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ideal seria que a comida seja preparada pelo retirante no dia anterior. Tomar\u00a0 alimentos que n\u00e3o sejam pesados, que n\u00e3o induzem ao sono. No deserto, at\u00e9 a comida material\u00a0no deve lembrar que ali estamos para sermos alimentados por Deus. Ren\u00e9 Voillaume nos diz: \u201co\u00a0deserto \u00e9 uma tentativa de avan\u00e7ar despido, fraco, desprovido de todo apoio humano, em jejum\u00a0total de alimento terreno, mesmo espiritual, ao encontro com Deus\u201d. \u00c9 verdade, que n\u00e3o podemos ir longe se Deus n\u00e3o nos envia Ele mesmo o alimento, como fez Elias prostrado,\u00a0 esgotado e extenuado. O deserto \u00e9 sempre uma respeitosa espera do alimento divino. \u00c9 como\u00a0 um grito de socorro lan\u00e7ado a Deus.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">ORA\u00c7\u00c3O SILENCIOSA<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O elemento \u201csil\u00eancio\u201d deveria ser sublinhado at\u00e9 o infinito. Sil\u00eancio dos sentidos, sil\u00eancio\u00a0da mente, sil\u00eancio da afetividade. Instantes passeando, instantes sentados ou de joelhos,\u00a0conforme lhe permitam o clima e o espa\u00e7o. Sempre, por\u00e9m, atento ao passo do Senhor,\u00a0mergulhando na escuta dEle. Esse Senhor nos fala com a eloq\u00fc\u00eancia penetrante do sil\u00eancio<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">ENSINAMENTO DO DESERTO<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O deserto tem me conduzido a vivenciar a f\u00e9 crist\u00e3 com dom de si. Dom que se expressa\u00a0n\u00e3o no ato imediato do servi\u00e7o, no fato de dar-se aos outros, mas na gratuidade do puro\u00a0oferecimento. Eu entro no deserto como quem vai ao encontro de Cristo na Cruz, para oferecer-me com Ele ao Pai pela salva\u00e7\u00e3o do mundo. O deserto se converte, assim, em lugar e escola de\u00a0intercess\u00e3o. Subjugado por um Jesus fraco e reduzido \u00e1 import\u00e2ncia, um Jesus que nos ensina\u00a0 que o que importa \u00e9 amar e que a liberta\u00e7\u00e3o dos homens n\u00e3o est\u00e1 em propor\u00e7\u00e3o direta \u00e1\u00a0 quantidade de nossas a\u00e7\u00f5es, mas \u00e1 qualidade de nosso ser entregue incondicionalmente \u00e1\u00a0 vontade do Pai. Os dias do deserto v\u00e3o aperfei\u00e7oando essa atitude de f\u00e9 pura e transparente de\u00a0 entrega radical mediante a qual nos sentimos instrumentos nas m\u00e3os de Deus para a\u00a0 transforma\u00e7\u00e3o de nossa sociedade e valores do Reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aridez dos dias de deserto, esse despojar-se, ou melhor, esse deixar-se e despojar e\u00a0conduzir por Ele, nos prepara para vivermos atentos ao passo de Deus na nossa hist\u00f3ria e para\u00a0dar raz\u00e3o de nossa esperan\u00e7a nos tempos de crise em que vivemos. E, assim, quando chegam\u00a0aqueles outros desertos, que para todos chegam, ou seja, o fracasso, a doen\u00e7a, as situa\u00e7\u00f5es sem\u00a0sa\u00edda, estamos preparados por Deus, trabalhados pelo Esp\u00edrito para n\u00e3o derrubar-nos nas crises\u00a0e reconhecer os pr\u00f3prios limites como maior fonte de fecundidade e efic\u00e1cia que a f\u00e9 faz brotar\u00a0no seio da exist\u00eancia de quem cr\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o poderia acabar esta reflex\u00e3o que, embora pobre, me permite ter uma vis\u00e3o de\u00a0conjunto sobre estes dias de gra\u00e7a vividos sob a luz do deserto, sem dizer, com a boca cheia:\u00a0obrigado, Senhor, pelo dia mensal de deserto, sacramento do teu passo de amor silencioso por\u00a0minha vida, e revelador dessa verdade t\u00e3o consoladora, de que somente Deus salva\u201d.<\/p>\n<p>Em \u201cCadernos de Ora\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 1987<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Boletim Jesus Caritas da fraternidade Sacerdotal \u2013 n\u00ba88 ano 1982)<\/p>\n<p>PDF: <a href=\"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/O-PEQUENO-COMO-FOR\u00c7A-PARA-GRANDES-ENTREGAS.pdf\">O PEQUENO COMO FOR\u00c7A PARA GRANDES ENTREGAS<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o onze anos que venho praticando com freq\u00fc\u00eancia o dia mensal de deserto. E, ainda\u00a0que seja dif\u00edcil apontar os frutos que esta experi\u00eancia tem amadurecido em mim (o essencial do\u00a0trabalho <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/documentos\/portugues-o-pequeno-como-forca-para-grandes-entregas\/\">Continue Reading &rarr;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-4215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4215"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4217,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4215\/revisions\/4217"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.iesuscaritas.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}