Carta de Jean François e Aurélio, Vernon, março 2017

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Queridos irmãos,

trabalhámos esta semana sobre os assuntos da fraternidade e, sobre tudo, as pessoas que estão no coração de nossa preocupação e que nos motivam, quer dizer, cada um de vós. Neste pequeno Nazaré de Vernon, em casa de nosso irmão François MARIN, que nos acolhe como a filhos seus, vos lembramos e damos graças a Deus por que sois nossos irmãos. Muito obrigado, François, por dar pousada ao peregrino e acolher teus irmãos.

Centramos o trabalho em rever temas pendentes da fraternidade num bom clima de diálogo e compartilhando ideias, opiniões e a preocupação por dar resposta a temas pendentes e de um futuro imediato para o funcionamento da fraternidade: os questionários para a Assembleia Europeia neste verão na Polónia, para a Assembleia Mundial na Índia em janeiro de 2019, a economia da fraternidade internacional, o preventivo da memória 2016 da fraternidade para ser enviada á Congregação para o Clero no Vaticano, a nova fraternidade em Haiti, as previsões para o encontro de responsáveis e delegados da família Carlos de FOUCAULD em abril, em Aquisgrão, os ecos do Centenário do irmão Carlos que nos chegam dos diferentes países, nossa inquietude pela saúde de Félix, de Madagascar, a recuperação de Suso, de Espanha, despois de uma intervenção cirúrgica, etc.

Segunda feira, 6 de março, compartilhamos com os responsáveis das regiões de Île de France e Normandia (Yves de MALLMANN, Joseph JOURJON, Louis YON e Xavier CHAVANE) um tempo prolongado de diálogo e encontro. Foi formidável poder encontrar-nos em fraternidade para por em comum as realidades de nossas fraternidades e as preocupações. Cremos que estamos vivendo em Europa um tempo de passagem que é um Nazaré real pelo envelhecimento das fraternidades. Existe um chamamento muito sério a viver este espaço com optimismo e amando esta espiritualidade Nazaré de ser cada vez mais idosos, com poucas entradas de gente jovem. Vivendo com simplicidade e ao mesmo tempo o compromisso de fraternidade universal nesta Europa centrada em si própria, redobrada sobre si, com a recusa do estrangeiro, do refugiado, com medos, que provocam a promoção das políticas populistas e as de corte reacionário. Perante tudo isto, e na línia do papa Francisco, nos sentimos chamados a testemunhar e viver a mensagem de fraternidade universal do irmão Carlos e o carácter missionário de nosso carisma como fraternidade sacerdotal Iesus Caritas. O diálogo com os muçulmanos em Europa acreditamos que é possível, e acontece em bastantes comunidades cristãs, com gestos de aproximação. Os preconceitos devem cair, e a tentação de olhar a outros deixar de ser uma ameaça. Por exemplo, em França, um terço dos bairros populares é muçulmano. Teremos que aprender a dialogar com esta realidade.

Terça feira, 7, recebemos a visita de Jacques GAILLOT, bispo de Partenia, de nossa fraternidade, que veio de Paris para compartir nosso trabalho em casa de Jean François. Foi um grande presente o tempo vivido desde que o acolhemos na estação do comboio de Vernon até sua partida. Pudemos aprender da sabedoria dos simples como ser mais humanitários, como ser sacerdotes num mundo difícil, como estar abertos á esperança e a viver fora das seguranças e comodidades de ser ocidentais. Obrigado, Jacques, por vir estar conosco e por todos os testemunhos a través de tua vida de uma entrega á causa de Jesus.

Quarta feira 8, trabalhamos na manhã, e á tarde fomos até a Gouville, para estar com Michel PINCHON, a quem encontramos forte e são. Sua casa está aberta a numerosas visitas de pessoas da terra onde vive ou de mais longe com quem partilha com generosidade sua experiência e sabedoria. Tivemos a ceia com Jean Louis RATTIER e a reunião do grupo de Bíblia de sua paróquia, em Damville, compartilhando sua pastoral e seu trabalho do dia a dia. Sempre é gratificante participar no Nazaré de cada irmão, tanto o exterior como o interior. Nazaré é a experiência viva de como nos situamos fraternalmente perante aquilo que nos rodeia, em uma união cada vez mais forte com Jesus.

Valoramos muito positivamente o trabalho de Fernando TAPIA, Jean Michel BORTHEIRIE e Manuel POZO em Almería, Espanha, para elaborar um documento base sobre o Mês de Nazaré. Este documento será estudado e aprovado na Assembleia de Bangalore. Obrigado a estes irmãos por ter respondido a nosso pedido desde a equipe internacional.

Lembramos que devemos fazer um esforço todas as regiões para colaborar com a caixa internacional, especialmente porque a próxima Assembleia Mundial de Bangalore 2019 tem já um orçamento e é preciso cobrir as despesas. Desde a equipe internacional procuramos economizar em recursos o máximo possível. Obrigado ás fraternidades que já aportaram sua cotização com generosidade.

Nosso site iesuscaritas.org está aberto á colaboração de todas as fraternidades. Esperamos vossos artigos, notícias e avisos de próximos acontecimentos para anuncia-los na agenda. É um meio de comunicação que nos aproxima uns dos outros.

Nossa reflexão teve como nota importante o chamado a viver, como fraternidade, nosso ministério como missionários dentro do presbitério diocesano, no lugar que ocupamos, seja na paróquia, ou no hospital, ou na prisão, ou dentro das organizações que ajudam os refugiados, os seres humanos deslocados pela guerra ou a pobreza, os lugares de atenção aos necessitados de nossas sociedades, com o chamado de ir aos últimos, como Carlos de FOUCAULD, já que aí encontramos a Cristo. Como o papa Francisco nos lembra, no há vida espiritual sem um coração aberto, generoso e misericordioso. “Saiamos, saiamos a oferecer a todos a vida de Jesus Cristo… Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e suja por sair á rua, mais do que una igreja doente pela reclusão e a comodidade de agarrar-se ás próprias seguranças… Mais do que o temor de enganar-nos, espero que nos mova o temor a encerrar-nos nas estruturas que nos dão uma falsa contenção, nas normas que nos tornam juízes implacáveis, nos costumes onde nos sentimos tranquilos, em quanto que fora está una multidão faminta e Jesus nos repete sem cansar-se: “¡Dai-lhes vós de comer!” (Mc 6,37) (Evangelli Gaudium, 49)

Desde Vernon nos desejamos uma santa Quaresma e um caminho para a Páscoa com Jesus e os irmãos e irmãs como companheiros de caminho.

Um grande abraço.

Jean François e Aurelio

Vernon, Normandia, França, 10 de março de 2017

(Muito obrigado, irmãzinha Josefa, para a tradução)

PDF: Carta de Jean François e Aurélio, Vernon, março 2017, port

WEND BE NE DO, um projeto que nasceu nas fraternidades

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WEND BE NE DO nasceu de um espírito unido entre Burkina Faso e Espanha a través das fraternidades de Carlos de FOUCAULD. Ir junto aos últimos, estar com eles, trabalhar por eles, situar-nos na periferia do mundo acomodado onde vivemos diariamente, é um desafio que a Fundação Tienda Asilo de San Pedro de Cartagena tomou a sério desde o ano 2005 e, por sua vez, todas as pessoas, organizações, instituições e paróquias que nos ajudaram e nos ajudam a seguir com um projeto que suscita amor, que te faz sentir que merece a pena trabalhar pela gente de Burkina Faso e especialmente pelas crianças, adolescentes, jovens e adultos de WBND na área de Bam, afetados pelo VIH-sida. Constatamos que o projeto se estende, que cresce, que as pessoas melhoram, que é como uma grande família onde ninguém é excluído. É um espaço humano onde não és estrangeiro embora nossa pele nos delate como ocidentais.

PDF: Memória WBND janeiro 2017, port

ILHA DE LESBOS, REFÚGIO DA ESPERANÇA, Carlos LLANO

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Carlos LLANO é desportista, economista, fundador da ONG Chilhood Smile e voluntário e colaborador da Fundação Tienda Asilo de San Pedro de Cartagena, Espanha, no projeto WEND BE NE DO de Burkina Faso. Esteve recentemente como voluntário na ilha de Lesbos, na Grécia, com os refugiados. Oferecemos seu valioso testemunho. Obrigado, Carlos.

Vivemos tão depressa e tão apegados a nossas mundanas necessidades do primeiro mundo que se fossemos capazes de tomar distância e observar-nos com atenção, sentiríamos repulsa por nós mesmos. O mundo tem graves problemas por resolver: calcula-se que existem 300.000 crianças soldados e que no ano 2016 são já 5.000 os refugiados e imigrantes que morreram afogados no Mediterrâneo, mas em geral, preocupam-nos mais nossos minúsculos problemas do primeiro mundo do que aquilo que possa acontecer fora de nossas fronteiras, ainda que esses acontecimentos sejam terríveis.

Vemo-los tão longínquos que por pensar que podemos fazer pouco, acabamos por não fazer nada. Os problemas do mundo não se solucionam aceitando-os com resignação ou indiferença ou culpando os governos. Os problemas do mundo são meus, são teus, são nossos. O mundo muda-se contagiando e inspirando com nosso comportamento diário. Se não quero ver nem um só afogado mais, só posso tomar a firme decisão de ir aportar meu minúsculo grãozinho de areia, que embora seja pequeno, é gigante comparado com a inação ou as centenas de mensagens que possamos pôr no muro de nossas redes sociais.

Lesbos é uma pequena ilha grega no meio do mar Egeo muito próxima das costas de Turquia. Alí se encontram dois campos de refugiados: Karatepe, que ainda conserva uma certa dignidade, onde estão famílias completas, na sua maior parte Sírias, mas poderiam estar até de República Dominicana. Sim, como estou dizendo, de República Dominicana. Quando não tens nada, arriscas até a vida, porque nada tens que perder fora desta mesma, y a desesperação pode chegar a ser tal que até a vida chega a não ter nenhum valor.

Em Karatepe cada família tem sua própia tenda de Acnur, têm cobertores, têm colchões e os voluntários de Remar encarregam-se de levar-lhes duas refeições diárias até a própia porta da tenda. As crianças brincam na “urbanização” de tendas, e a esperança de uma vida melhor parece que ainda não se perdeu completamente.

O outro campo de refugiados é Moria. Uma antiga cadeia com capacidade para 2.000 pessoas onde se encontram amontoadas mais de 5.000 em tendas de campanha do Decathlon que flutuam quando chove e a lama cai pelo aterro. A tensão é evidente e respira-se só com travessar esses altos valados cheios de espinhos. Aqui não há famílias, estão muitos rapazes jovens, e alguma mulher com crianças pequenas. Cada um deles de um país, uns costumes, uma língua, uma cultura. Jovens de Nigéria que fogem porque Boko Haram assassina, sequestra e tortura quem lhe passa pela cabeça. Adolescentes de Pakisãot que não querem continuar a viver num país onde o Isis chega a uma aldeia para degolar todas as mulheres e disparar a todos os homens até deixar essa aldeia sem rasto de vida. São histórias reais que me contaram enquanto ajudava durante horas fazendo a trivialidade de cortar quilos e quilos de batatas para poder comer esses milhares de rapazes, mulheres e crianças unidos por a desesperança por não ver saída no fim do túnel, por ver que as autoridades os têm ali esquecidos e conforme passa o tempo sua lembrança vai-se diluindo em nossos pensamentos. A deshumanização é tanta que as máfias converteram este problema em um negócio rentável onde chegam a cobrar de 3.000 a 5.000 euros por pessoa por uma embarcação sem nenhuma seguridade, com sobrepeso, a base de aglomerar mais e mais pessoas sem espaço para apenas mover-se, onde cada pessoa não pode levar nenhuma equipagem, já que tiraria espaço para outro refugiado a quem cobrar, e com uns coletes salva-vidas recheados de lixo em vez de ar que, em caso de necessidade y por sua falta de flutuabilidade, vai fazer perder una vida más, aumentando o número das 5.000 personas que já se afogaram no mar Mediterrâneo durante o ano 2016. Fica nossa inquietude ou nossa indiferença perante este desastre humano que parece ser uma rua sem saída. Em nossas mãos está mudar este mundo.

Carlos LLANO FERNÁNDEZ

PDF: Ilha de Lesbos, refúgio da esperança, port